O Santo Sangue, hoje no Baú de HQs, é mais uma obra nacional e vencedora do 31o HQ Mix deste ano na categoria Melhor Roteirista.

Escrita por Laudo Ferreira e com arte de Marcel Bartholo, o álbum publicado pela Jupati Books – selo da Marsupial Editora – tem 80 páginas coloridas, em uma edição com capa cartão.

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O Santo Sangue traz uma história bastante brasileira, com elementos intimamente ligados a realidade do Brasil que existe fora das grandes metrópoles e centros urbanos. Na trama, a jovem Lucem, conhecida como “Santinha Lucem”, é uma idolatrada e milagrosa curandeira em um pequeno vilarejo.

Lucem passa seus dias curando centenas de pessoas da região através de seu sangue menstrual. No entanto, o velho senhor Contreiro, pai da jovem, acredita que a cura é apenas crença popular e que a infinita menstruação de sua filha é obra de uma desgraça causada por Cueva, um misterioso homem que esteve na vila um tempo atrás.

Com um clima de cordel misturado com folclore e lenda amazônica, Laudo Ferreira desfia sua história em cenários deslumbrantes realizados de maneira intensa por Bartholo, que abdica das cores primárias e tons pasteis para favorecer tons mais escuros e cores mais densas, deixando os quadrinhos em uma ambientação de mistério e aventura.

O Santo Sangue – Baú de HQs 1

Vernio chega à vila: clima árido e de pobreza

As cores escolhidas favorecem em muito a narrativa, dando aridez em algumas cenas no vilarejo; um aspecto quente e úmido nas cenas na floresta; e um clima de terror nas cenas de flashback. Além disso, o traço estilizado e anguloso de Bartholo, realçado com traços brancos, lembra demais as xilogravuras presentes em cordéis, trazendo um clima regional na leitura da HQ.

O Santo Sangue – Baú de HQs 2

O matador encontra a bruxa: uma jornada de auto-conhecimento e cura.

O Santo Sangue – a HQ

O roteiro de Laudo Ferreira é bastante envolvente e a história é contada pela perspectiva de Vernio, o matador, contratado por Contreiro para acabar com Cueva.

Com diversos elementos clássicos, os personagens de O Santo Sangue parecem ter muitas outras histórias apenas aguardando serem contadas: o velho Contreiro, em uma arquetípica figura do “coronel” de fazenda, se comporta como um Jabba do Sertão; Vernio, o típico matador de aluguel, com milhares de fantasmas de seu passado; a velha bruxa, figura misteriosa, mística e um tanto amalucada, numa espécie de “mestra Yoda” raiz; e Lucem e Cueva, como figuras centrais do mistério, força motriz da história toda.

Algo que é típico da produção de Laudo Ferreira é essa mistura de elementos muito brasileiros com realidades que podem ser interpretadas como “realidades fantásticas” mas que no fundo figuram na viagem interna de cada personagem, confrontando seu medos pessoais, traumas ou escolhas de vida.

Seja em Cadernos de Viagem (uma obra praticamente auto-biográfica) ou Yeshua Absoluto (saiba mais aqui e aqui) ou ainda na nova fase da loira Tianinha, a obra de Laudo sempre remete à reflexão psicotrópica – mas não a “viagem de ácido recreativa” e sim uma jornada de autoconhecimento dos personagens que destaca a importância da jornada interna e da aceitação de si mesmo para a compreensão do outro.

O Santo Sangue tem apenas um único defeito: é uma HQ curtinha demais para um universo extremamente rico e que deixa a imaginação do leitor fervilhando de curiosidade por mais aventuras desse Brasil ao mesmo tempo tão fictício e tão real criado por Laudo Ferreira e desenhado por Marcel Bartholo.

Agora é torcer pra que venham mais histórias!

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Sugestão de Leitura:

O Santo Sangue – Baú de HQs 3

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Créditos:
Texto e Edição: Alexandre Baptista
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Imagens: Reprodução

O Santo Sangue – Baú de HQs – Matéria publicada originalmente em 17 de setembro de 2019. Atualizada em 22 de julho de 2020.

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