É importante abrir essa análise da Era de Ouro de Berserk dizendo que nunca fui um leitor assíduo de mangás. Lia o básico (até 2017): Cavaleiros do Zodíaco, YuYu Hakusho, Inu-Yasha, Dragon Ball, Lobo solitário.. Nada muito diferente. Em 2017 comecei a ler obras que até então desconhecia e que tinham uma tendência maior ao absurdo: Assassination Classroom, Slam Dunk, Monster, 20th century boys, Thermae Romae, Death Note, Vagabond, Jojo´s Bizarre Adventures… Mas nenhuma delas tinha me preparado para a obra de Kentaro Miura: Berserk.

O propósito aqui é analisar o cerne da obra e o que tornou esse arco Era de Ouro de Berserk – que abrange as 14 primeiras edições – um mangá tão memorável.

A obra começa de forma “normal”: demônios, spadachim altamente habilidoso com espada gigante… Chama atenção desde o começo o nível de violência gráfica na obra. Sou fã de Garth Ennis e (aqui ainda não) nunca achei que nada pudesse me chocar. Estava enganado. A coisa esquenta mesmo a partir do volume 3 quando começamos a ser apresentados ao passados dos protagonistas de Berserk: Guts e Griffith.

Spoilers leves de Berserk a Era de Ouro a partir daqui!

Tudo sobre A Era de Ouro de Berserk 1Guts é um dos personagens principais no arco A Era de Ouro de Berserk – o mangá de Kentaro Miura

É a história clássica dos amigos que vão para lados opostos que guia a Era de Ouro de Berserk . Só que feita de uma forma que nunca havia visto antes. A transformação do personagem Griffith (ou a maldade já estava lá e eu não vi?) é comparável a de Walter White em Breaking Bad e a evolução do protagonista “da espadona” Guts é notável também.

O que torna a história diferente é o nível de violência e maldade envoltos em toda a história. E não falo de maldade gráfica apenas. A maldade no âmago dos personagens impressiona e a história se mostra firme (e filosófica). Outro ponto notável são os diálogos e a intenção clara do autor em mostrar as camadas dos protagonistas. Em determinado ponto da nossa jornada o autor coloca uma mulher como uma espécie de 3ª protagonista: Caska. Nesse ponto eu pensava que já sabia o que ia acontecer: amigos brigando por amor e ideias. Mas era beeeeeeem mais o que havia sido preparado.

A edição 13 da Era de Ouro de Berserk: Violência Extrema (Spoilers)

Tudo sobre A Era de Ouro de Berserk 2Guts e Caska protagonizam cenas horripilantes envolvendo estupro e sangue no arco A Era de Ouro de Berserk

A obra já vinha em um crescendo absurdo de história e violência quando chegamos na tão falada edição 13. A transformação iminente de Griffith (após sofrer “o diabo” nas mãos de um torturador pra lá de esquisito) se avizinhava e eu esperava algo grandioso. Mas nada tão “louco” quanto o que aconteceu nessa edição. Ennis que me desculpe, mas depois disso o trabalho dele não me parece feito para “pessoas de coração fraco”.

A personagem Casca sofre algo difícil de descrever e Guts passa por um nível de fúria que justifica – finalmente – o uso do termo BERSERK (fúria incontrolável antes da batalha). Ele fica literalmente louco. Estupro, morte, violência ao extremo e loucura figuram nessas páginas de forma que eu nunca tinha visto antes. E a exploração gráfica da coisa é de revirar o estômago. Mas o que mais impressiona é quando vemos aflorar a maldade real em Griffith. O caminho parecia óbvio (afinal começamos vendo o personagem já “malvado” nas duas primeiras edições) mas o caminho que vemos ele fazer para mudar é realmente avassalador. Acho que nunca vi um vilão representar tão bem a “pura e simples maldade”. E – de alguma forma – Miura ainda mantém Griffith relacionável e foge de saídas fáceis e clichês para explicar a mudança.

O que dizer do autor? O que a mente dele concebeu é assustador e realmente não é um cara que eu gostaria de ter por perto! 

Conclusão livre de spoilers de a Era de Ouro de Berserk

Tudo sobre A Era de Ouro de Berserk 3Griffth se torna o grande mal de uma forma tão avassalador que surpreende no arco A Era de Ouro de Berserk

Tenho que terminar dizendo: Berserk não é para os fracos de coração. Violência, traição, filosofia, magia e mais andam lado a lado em uma obra extremamente complexa. Vale muito a pena ler (apesar dos possíveis pesadelos) e descobrir como o óbvio ainda pode surpreender. A releitura (após o arco) é quase obrigatória uma vez que voltamos a ler já sabendo dos eventos e percebendo mais claramente os sinais do que ia acontecer.

A fórmula é simples: Magia + Lutas + Vilão Desgraçado (com passado complexo) = sucesso, mas extremamente difícil de ser replicada. Vida longa a Berserk (que continua sendo publicada) e ao autor que mostrou que não há limites para o que um mangá pode entregar.

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Créditos:

Texto: Lucas Souza

Imagens: Reprodução

Edição: Diego Brisse

Matéria publicada originalmente em 13 de nov de 2018. Atualizada em 14 de maio de 2020.

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