Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (Midsommar)
Ano: 2019 Distribuição: Paris Filmes
Estreia: 19 de Setembro (Brasil)

Direção e Roteiro: Ari Aster

Duração: 147 Minutos  

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.

 

 

Alexandre Baptista

Midsommar – O Mal Não Espera a Noite: terror antropológico de Ari Aster surpreende

Diretor que incomodou plateias com seu Hereditário no ano passado repete a dose e faz um filme imprescindível

por Alexandre Baptista

 

Ari Aster fez novamente. Depois da excelente surpresa em Hereditário (Hereditary, 2018) – leia nossa crítica aqui e dicas de streaming aqui), qualquer nova produção do diretor traria a expectativa se a qualidade do novo longa se manteria ao menos próxima de sua estreia nas telonas.

Pois o cineasta, que também assina o roteiro da produção que estreia nesta quinta-feira, 19 de setembro nos cinemas brasileiros, repetiu a dose, entregando mais uma obra-prima do cinema que promete incomodar muitas plateias e espectadores em função da crueza de algumas cenas e do clima geral de desconforto que a produção transpira.

Se por um lado Midsommar tem a inconfundível assinatura do emergente mestre, com uma trilha sonora incômoda e impecável na ambiência do filme e cenas que valorizam uma tensão crescente; por outro lado ele se distancia bastante de seu primeiro longa, principalmente ao lidar com temas “físicos”, em oposição aos temas esotéricos de Hereditário e por ambientar a maior parte do filme à luz do dia e em locações externas.

Na trama, o jovem casal Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor) se veem em uma viagem a um remoto vilarejo na Suécia, lar de infância de Pelle (Vilhelm Blomgren), amigo de Christian. Junto com eles estão mais dois amigos, Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter); a viagem, originalmente planejada entre os garotos, acaba sendo aberta a Dani após o suicídio de sua irmã, que assassinou também os próprios pais.

Essa delicada trama inicial revela muito da genialidade do diretor: em poucos minutos, toda a situação do casal – ela, precisando do apoio dele; ele, ansioso por terminar o relacionamento – a reação dos amigos de Christian a respeito disso e o foco pessoal de cada um deles sobre a viagem é brilhantemente estabelecido, já num clima de desconforto e tensão.

Só que Midsommar vai além. Além do excelente roteiro e excelentes atuações. Além dos ângulos de câmera virtuosos, das pequenas inserções em computação gráfica para ambientar as viagens psicotrópicas em geral. O longa transcende as barreiras do gênero do terror e entrega uma obra-prima da crítica social, baseada livremente em aspectos antropológicos e estabelece uma narrativa focada em Dani e na inversão de valores a que nos sujeitamos no mundo ocidental.

A partir do momento em que o grupo chega a Hårga, o pequeno vilarejo natal de Pelle, a narrativa toda se desenvolve sob a influência de algum elemento psicotrópico: sejam ácidos, chás ou pós que provocam algum tipo de alucinação. No entanto, os aspectos emocionais parecem em harmonia – ao contrário da vida sufocante mostrada até então.

O estilo de vida do vilarejo é bastante inusitado para a visão de mundo atual e, diversos costumes do local provocam o pânico em seus visitantes. Enxergamos algumas das cenas como nojentas, violentas e até mesmo inaceitáveis: rituais pagãos estranhos que envolvem sacrifícios e formas totalmente coletivas em se lidar com a sexualidade e mais.

No entanto, se deixarmos de lado o incômodo inicial de celebrações, rituais e oferendas, que eram praticadas historicamente por tribos nórdicas como os vikings, por exemplo – pesquise “águia de sangue” para ter uma ideia – temos na verdade um filme que levanta questionamentos incômodos a respeito do modo de vida que levamos e qual o verdadeiro sentido em tudo isso.

Por exemplo, a protagonista está visivelmente melhor amparada na comunidade de Hårga do que com sua família ou namorado, onde claramente os aspectos emocionais eram lidados de forma superficial e insatisfatória.

Outro exemplo, que reforça uma diferente perspectiva a tudo o que é presenciado pelos personagens no longa é o episódio protagonizado por um motorista de ônibus no último dia 08 de setembro em São Paulo: expulsando de dentro do veículo um casal gay que trocava gestos de carinho entre si, o motorista espancou o jovem Marcello Santana que, desfigurado, registrou ocorrência em delegacia denunciando o crime de homofobia.

Ora, caso a sociedade evolua, é possível que daqui 50, 100 anos, os produtores estejam realizando filmes de “terror” em que homofóbicos espancam e matam jovens homossexuais em nome de suas religiões – que pregam o “amor ao próximo” desde que esse “próximo” tenha a crença “certa”; isso porque, em comparação, muitos dos rituais mostrados em Midsommar eram a conduta religiosa padrão há 1100 anos mais ou menos. Usar a religião como justificativa para atos revoltantes, ao que parece, não é novidade.

Por mais que os visitantes, no longa, acabem não tendo saída e sejam forçados a participar de coisas que talvez não quisessem, muitas religiões atuais seguem o mesmo caminho: demonizando estilos e opções de vida diferentes daquela que consideram corretas e praticamente condenando à morte todos aqueles que se recusam a adotar sua doutrina.

Midsommar – O Mal Não Espera a Noite é uma obra fundamental aos amantes do cinema, seja pela habilidade e grande qualidade de sua história, sua direção, atuação e trilha sonora; seja por sua imprescindível força questionadora no momento de profundo obscurantismo artístico e social que começamos a atravessar.

 

 

Avaliação: Excelente!

 

 

 

Trailer

 

 


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