Ultimato do Bacon

Derrotista (2006) – O Ultimato

Em 25 de Nov de 2021 3 minutos de leitura
UB Derrotista de Joe Sacco 1 PRINCIPAL

Conheça o quadrinho mais autobiográfico de Joe Sacco, o mestre do jornalismo em quadrinhos, em Derrotista

Talvez seja clichê falar da importância de Joe Sacco para o jornalismo em quadrinhos. Então vamos ao que interessa: antes de seu trabalho definitivo, Palestina (2021), publicado originalmente entre 1993 e 1995, o quadrinista produziu e editou a revista Yahoo de 1988 a 1992. Nela, Sacco desenhou histórias autobiográficas, satíricas e sobre guerra.

Derrotista (2006) reúne produções desta fase do autor. No Brasil, saiu pela Conrad Editora em 2006, com 224 páginas divididas em 10 capítulos. O livro é todo em preto e branco e Sacco já tinha um traço bem característico, com uma pegada cartunesca e cheia de hachuras.

Qual a trama de Derrotista

No primeiro capítulo, “Gênio dos Quadrinhos”, conhecemos um pouco do período em que Joe Sacco morava na cidade de Portland – no estado de Oregon, Estados Unidos, onde cursou Jornalismo –.  Era uma vida junk, com pouco dinheiro e comida enlatada.

Sacco conduz com humor seu dia a dia em uma casa bagunçada, desempregado, condenando o trabalho nas agências de publicidade, já que ele queria seguir pelo caminho dos quadrinhos autorais e se afastar do mundo corporativo. O paradoxo aparece quando surge uma oportunidade de trabalho e o dinheiro faria toda diferença.

Em “Oito Personagens”, segundo capítulo, temos o lado mais satírico do autor em histórias de duas a quatro páginas em um estilo que lembra muito Robert Crumb. É uma sequência com críticas sobretudo ao mercado de trabalho e ao corporativismo.

No terceiro capítulo voltamos ao quadrinho autobiográfico, mas é no quarto, chamado de “Na companhia do cabelo comprido”, que temos um dos destaques de Derrotista. É quando Sacco apresenta uma espécie de diário de viagem do tempo em que rodava a Europa como ilustrador de uma banda de rock. Sexo, drogas, porres e dificuldades nas fronteiras são algumas das coisas que vemos.

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Sacco na turnê de rock pela Europa é um dos destaques da HQ

A partir do capítulo sete, algumas das primeiras produções de Sacco sobre a guerra. “Mais mulheres, mais crianças, mais rápido” é uma história especial: as memórias da mãe do quadrinista, Carmen Sacco, do período entre 1935 e 1943, quando a ilha de Malta (Sacco e a família são malteses) sofreu ataques da Itália e da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

O jornalista não foca nos “porquês” do embate, mas em como era a vida de uma criança nessa realidade. A comida racionada, as noites em minas e abrigos públicos para se proteger das bombas, a destruição das casas, insalubridade e problemas com os estudos…

“Como amei a guerra”, nono capítulo, mostra a fixação de Sacco pelas guerras mundo afora, em especial a do Golfo. Em certo momento, o quadrinista tem dificuldade até de conversar com as pessoas, pois só pensava e falava sobre isso.

O comportamento acaba parecendo algo por vezes fetichista e por vezes paranoico, o que ele mesmo apresenta de forma irônica. Mas é esse interesse que, posteriormente e amadurecido, resultaria em obras como Palestina e Área de Segurança Gorazde.

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Em Derrotista, somos levados pelas paranoias de Joe Sacco

Vale a pena ler?

A contracapa da edição da Conrad destaca uma frase publicada pelo The Guardian: “Uma valiosa introdução para iniciantes do estilo de reportagem de Joe Sacco.” A impressão que eu tenho é exatamente a oposta. Derrotista é uma obra que tem um valor enorme justamente para os que gostam do trabalho do autor e querem ter a experiência de conhecê-lo em seu início de carreira.

Com o tempo, Sacco foi adaptando seu estilo à densidade de suas coberturas posteriores – quase que invariavelmente sobre a guerra –. Percebe-se que ele buscou limitar o humor a momentos que não denotassem algum tipo de desrespeito aos retratados nas HQs.

Mas Derrotista nos mostra a total falta de limites do autor, em um ótimo sentido. Até porque em boa parte ele assume a responsabilidade por satirizar ele mesmo. E é assim que vamos conhecendo muito mais Joe Sacco, percorrendo suas paranoias, inseguranças amorosas, reflexões, sempre com muitas “licenças poéticas” e criatividade.

Por mais que as obras mundialmente famosas de Sacco tenham um caráter pessoal, conhecer o Joe bibliotecário, roqueiro e recém-formado, sempre de mente crítica e aberta – para os leitores –, é um deleite para os fãs do quadrinista. E é indiscutível que o talento já estava lá.

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Avaliação: Ótimo!

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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