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Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato

Em 24 de Set de 2021 4 minutos de leitura
Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato

Conheça um dos conflitos mais complexos da Europa por meio do jornalismo em quadrinhos em: Uma história de Sarajevo

Não é à toa que Joe Sacco é provavelmente a maior referência em matéria de jornalismo em quadrinhos.

O maltês utiliza as técnicas do jornalismo literário – que por vezes nos lembra Gay Talese – em uma arte sequencial rica e pessoal para nos trazer reportagens que mostram a realidade de lugares, pessoas e eventos dos quais normalmente só temos informações frias, político-econômicas e estatísticas.

Uma história de Sarajevo (2003) é um grande exemplo. Uma das questões mais complexas da geopolítica internacional é a desintegração da Iugoslávia, que teve início com a Eslovênia e a Croácia declarando independência e fazendo eleições presidenciais em 1991.

O feito é seguido por Macedônia e Bósnia-Herzegovina. Neste último caso, porém, o país enfrentou uma das guerras civis mais complexas e sangrentas da história da Europa. Estima-se que houve cerca de 200 mil mortes.

A Guerra da Bósnia durou de 1992 a 1995 e teve diversos fatores. Entre eles a religião, o nacionalismo e a etnia de seus habitantes. O país era e ainda é habitado por sérvios, croatas e mulçumanos, cada um com interesses próprios.

No Brasil, Uma história de Sarajevo foi publicada pela editora Conrad em 2005, com 124 páginas em preto e branco. A arte de Sacco é ótima em passar o clima de cada momento. Rica em detalhes e claramente influenciada por Robert Crumb.

Qual a trama de Uma história de Sarajevo?

Joe Sacco faz uma grande reportagem em quadrinhos sobre a Guerra da Bósnia. O principal recorte, no caso, são as facções mulçumanas formadas durante o conflito e seus líderes, considerados “senhores da guerra” naquele período.

Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato

A maior parte do conflito é contada pelo olhar do bósnio Neven

Para isso, o jornalista viveu no país durante o último ano de guerra e usou como principal fonte um ex-soldado que atuava como guia em Sarajevo: Neven.

Neven era filho de uma mulçumana, mas foi criado como sérvio pelo pai. Além de ter servido o Exército Popular da Iugoslávia como atirador na década de 1980, tem em seu currículo a participação em roubos de veículos, assalto a bancos e contrabando de armas para palestinos.

Durante a Guerra da Bósnia, os Boinas Verdes eram grupos paramilitares com líderes auto eleitos. O mais carismático, segundo Neven, era Ismet Bajramovic, o Celo, um agressivo ex-presidiário com costas quentes no governo.

Alija Izetbegovic, presidente do país, tinha origem mulçumana. Na época, os Boinas Verdes foram criados em resposta aos grupos paramilitares organizados pelo Partido Nacionalista Sérvio, que queria marginalizar as outras etnias e unir a Bósnia à Sérvia.

Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato

A unidade de Celo era uma das mais respeitadas na guerra

Neven era apaixonado por Sarajevo. Relembrava com orgulho da diversidade da região, onde todos os cidadãos conviviam bem. A Bósnia era a república de maior mistura étnica da antiga Iugoslávia.

Como o ex-militar se considerava nacionalista e prezava pelo antigo modo de vida da cidade, sem a indexação do país, aceitou o convite de amigos para participar dos Boinas Verdes, entrando para o grupo de Celo.

É por meio das lembranças de Neven que vamos conhecendo mais o conflito. E também líderes como Jusuf Prazina (Juka), Musan Topalovic (Caco) e Ramiz Delalic (Celo). Cada um teve uma origem diferente e uma forma própria de lidar com os governantes oficiais.

Com os relatos, vemos como era a vida desses soldados, as festas, onde se abrigavam, os roubos de mercados para se alimentar e as estratégias militares. Além do drama vivido pelos civis, que tinham seus bairros bombardeados e muitas vezes eram obrigados a deixar suas casas para o uso dos paramilitares – normalmente de outra etnia –.

Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato

Muitas pessoas perderam parentes, amigos e suas próprias casas

É claro que, como bom jornalista, Sacco buscou checar os dados de Neven de diversas outras formas e com diversas outras fontes. Em determinado momento, percebeu que nem sempre o bósnio era preciso em sua narrativa, para dizer o mínimo.

A relação de Sacco com Neven é muito bem apresentada na HQ. Muitas das vezes encaramos Neven como um irmão mais velho sacana do repórter, querendo tirar vantagens de cada encontro.

Como é comum no jornalismo literário, Sacco narra – e desenha – como foi sua cobertura. Apesar de ele apresentar Neven sempre como um amigo, é implícita a crítica que podemos ter para esse tipo de profissional. Guias que lucram vendendo a guerra, o sangue e a tragédia aos ávidos noticiosos do mundo afora.

O próprio nome do quadrinho em inglês tem um acréscimo que dá destaque para tal figura: The Fixer: a story from Sarajevo.

Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato

A relação entre jornalista e fonte é retratada em detalhes na HQ

Vale a pena ler?

É necessário realçar que Uma história de Sarajevo é um recorte da truncada Guerra da Bósnia. O debruçar sobre o lado sérvio ou croata poderia nos conduzir por um caminho totalmente diferente.

As particularidades dos grupos paramilitares mulçumanos – os Boinas Verdes –, porém, são tão efetivas para a linha de condução do quadrinho que, além de termos um relato humano, conseguimos ir formando um olhar mais rico para o todo.

Sacco e Neven não escondem em nada os comportamentos bárbaros dos Boinas Verdes e tampouco soam maniqueístas.

Vale destacar como o radar do jornalista precisa ter um ótimo feeling para descobrir bons personagens e contar boas histórias. Nem sempre as lideranças políticas e militares ou os cidadãos mais famosos são as melhores opções. Sacco prova isso.

Uma história de Sarajevo é mais uma aula de jornalismo em quadrinhos do autor. É interessante tanto para conhecer esta forma de narrativa quanto para saber mais sobre uma região e cultura tão distantes de nós.

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Avaliação: Excelente!.

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Uma história de Sarajevo (2003) – O Ultimato


Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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