Ultimato do Bacon

Palestina (2021) – O Ultimato

Em 18 de Out de 2021 6 minutos de leitura
Palestina (2021) – O Ultimato

Joe Sacco viveu dois meses e meio entre a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém, entrevistando palestinos nos últimos dias da Intifada para produzir JHQ. Conheça essa história em: Palestina

Se existe um nome que há mais de duas décadas se destaca no jornalismo em quadrinhos (JHQ), é Joe Sacco. E se há um trabalho do autor que é tido como o definitivo, é Palestina. Curiosamente, foi o primeiro exercício de Sacco no sentido de fazer uma grande reportagem em forma de HQ.

O desbravamento deu certo, foi mundialmente reconhecido – chegando a vencer o American Book Award – e, como dizem, criou as bases para o JHQ. Palestina foi lançado originalmente em nove edições de 24 e 32 páginas entre 1993 e 1995 pela Fantagraphics Books.

Neste ano, 2021, a editora Veneta republicou Palestina no Brasil em 328 páginas, com um trabalho editorial muito bacana, incluindo prefácios do intelectual palestino Edward Said e do jornalista José Arbex Jr., além de reflexões e comentários sobre o processo de produção pelo autor.

Anteriormente, a Conrad havia publicado a obra em dois volumes com os títulos Palestina: Uma nação ocupada, em 2000, e Palestina: Na Faixa de Gaza, em 2003. Em 2011, a mesma editora imprimiu Palestina: Edição Especial, com a íntegra do trabalho.

Joe Sacco é jornalista formado pela Universidade de Oregon. Na época, se questionava sobre a cobertura dada a questão entre Israel e Palestina nos Estados Unidos, onde vivia. Após morar um tempo em Berlim, Alemanha, produzindo revistas em quadrinhos e cartazes para bandas, decidiu relatar histórias das ocupações e assentamentos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Palestina (2021) – O Ultimato

Sameh é o dedicado guia palestino de Joe Sacco na precária e lamacenta Faixa de Gaza

Qual o enredo de Palestina

Sacco viveu dois meses e meio – durante o inverno de 1991-1992, últimos dias da primeira Intifada – na região de Israel. Boa parte do tempo em assentamentos palestinos. Seguia uma agenda de entrevistas, fotografias e produção de um diário, que serviram de base para Palestina.

A obra conta a experiência do jornalista indo de encontro aos personagens. O objetivo de Sacco era desenhar as histórias menos contadas, dar voz aos menos favorecidos. Quem eram aqueles palestinos que, na época, pouco se conhecia nos Estados Unidos – e por consequência em boa parte do mundo –? O que eles sofriam? O que eles pensavam do processo de paz, do Estado de Israel, dos ataques terroristas? Eram todos fundamentalistas religiosos?

A primeira parada é no Cairo, Egito, de onde Sacco entrou em Israel de ônibus. No prefácio ele explica que tinha um medo infundado de chegar pelo Aeroporto Internacional Ben Gurion, em Tel Aviv, onde poderia ser interrogado e impedido de seguir com o projeto.

Mas é no segundo capítulo que as coisas acontecem. Sacco pega um taxi de Damasco, na Síria, para Nablus, Cisjordânia. O transporte é sempre dividido com outros usuários, o que, de forma recorrente na HQ, acaba rendendo mais depoimentos e pedidos de ajuda de palestinos.

Na cidade, é apresentado a um jovem que conta ter sido baleado cinco vezes, mostrando as cicatrizes. Os palestinos perguntam se Sacco quer ver mais feridas e os levam ao hospital. Lá, ele vê cidadãos com gesso. Um, em particular, baleado no intestino grosso e no fígado. A maioria parece ter orgulho em sair nas fotos com keffiyeh – lenço que aponta a facção ao qual o cidadão se identifica ou faz parte – após o sofrimento.

No decorrer da HQ, Sacco busca depoimentos dos mais velhos que deixaram suas casas em 1948 – durante a primeira guerra árabe-israelense –, de pessoas que haviam sido presas – descobre-se, grande porcentagem da população masculina –, dos jovens que participavam da Intifada ou eram parte das facções paramilitares, e das mulheres.

Palestina (2021) – O Ultimato

Repetidas vezes, as entrevistas se dão no que Sacco cunhou de sala palestina. Frio, chá e muitos homens

Algumas coisas eram recorrentes, como a boa vontade dos palestinos, sempre hospitaleiros, em contar suas histórias, as constantes paradas para beber chá, o frio, as casas com problemas estruturais como falta de telhado, a alimentação acompanhada do pão pita, toques de recolher, e o que Sacco, de forma irônica, chamou de sala palestina. Muitos homens lamentando suas feridas e tragédias. As crianças correndo pelas ruas, os relatos de violência, as dificuldades comerciais e de trabalho também eram frequentes.

O jornalista não deixa de mostrar os conflitos internos, como as dificuldades dos grupos feministas e a violência enfrentada por mulheres, o esforço para distanciar os jovens do lazer e direcioná-los para as disputas políticas, a falta de apoio para deficientes e os ataques feitos aos chamados colaboracionistas, palestinos que auxiliavam de alguma forma o Estado de Israel.

A cada cidade, um guia local – o fixer – apresentava a região e ajudava a encontrar os perfis que Sacco queria entrevistar. Dois deles se destacaram. Ghassan morava no leste de Jerusalém. Havia sido preso e torturado por ser suspeito de pertencer a uma organização ilegal. Ele conta que, apesar de não haver provas contra ele, a custódia foi renovada diversas vezes para o prosseguimento das investigações e tentativas de confissão.

Quando Sacco parte das entrevistas na Cisjordânia para a Faixa de Gaza, é Sameh, professor de filosofia, que o abriga por cerca de uma semana em Jabalia. O fixer trabalhava em tempo integral como voluntário no centro de reabilitação do campo. A situação ali parecia mais grave, as ruas eram enlameadas e a falta de estrutura maior.

Tudo é contado por relatos de pessoas que têm rosto, nome, história e diversidade de opiniões. Muitos acreditavam na paz entre o Estado de Israel e os palestinos, muitos não. Parte era contra os ataques terroristas e preferia não se filiar às facções paramilitares. Outros já tinham opiniões mais extremas, do tipo que a solução da questão palestina se daria com o fim dos judeus.

É interessante observar que esses conflitos de ideias da população se repetem entre as organizações paramilitares palestinas, como no caso do Hamas e do Fatah, que brigam pelo domínio na região, hoje dividida. Por meio da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), elas têm importância organizacional, governamental e diplomática.

Palestina (2021) – O Ultimato

População protesta contra a morte do palestino que sofreu um ataque cardíaco durante um interrogatório

Vale a pena ler?

Palestina é um marco do jornalismo em quadrinhos. Um momento em que o próprio estilo do autor estava em construção. A principal crítica, não à toa, é a de que Joe Sacco só mostra um lado da história. Diria mais, o autor não é imparcial.

Mas em nenhum momento Sacco é desonesto. Desde o princípio, deixa claro que o objetivo dele era contar as histórias que eram esquecidas pela grande mídia. Tentar responder quem são esses palestinos que tanto figuravam em jornais internacionais sem sequer terem nome. O que eles pensavam e como viviam?

Sacco fez tudo isso a partir de sua própria experiência nas cidades palestinas. E é aí que encontramos três escopos inquestionáveis do jornalismo: contar boas histórias, trabalhar com a verdade – ou a tal da objetividade jornalística –, e trazer fatos que tenham interesse público, relevância social e por algum motivo possam estar nas sombras, velados ou esquecidos.

É possível se questionar sobre o que podemos chamar de verdade quando trabalhamos com apenas um lado da história. Oras, penso eu que é uma verdade. Uma parte do todo. Aquela vista por um grupo e permeada, ainda, pelo olhar do jornalista. O que não se pode é dizer que aquela é a única verdade. E isso Sacco não faz.

O quadrinho não serve para criar um juízo de valor definitivo sobre a questão da Palestina. Nem pode ter essa pretensão. Podemos entender que acaba retratando os judeus de uma maneira preconceituosa. Aparentemente, são sempre desenhados como vilões – no caso dos soldados e colonos – ou alienados contraditórios – no caso dos turistas e profissionais de outras regiões –.

Isso, porém, ajuda a passar a forma com que os palestinos veem os judeus naquele contexto. Algo introjetado no autor, que por meses fez amizades e foi sempre muito bem recebido pelos palestinos. Sacco, importante repetir, é honesto. No último capítulo, o maltês reflete, ao lado de duas jovens de Tel Aviv. “Me ocorre que eu vi os israelenses, mas através dos olhos dos palestinos…”

A HQ de Joe Sacco é metalinguística, se aproxima do jornalismo literário. Em certa medida pessoal. Crítica ao jornalismo do Ocidente. Apresenta os palestinos com solidariedade e como os seres humanos que são. Também não se retrai ao apontar seus próprios preconceitos.

O fato do quadrinista reconhecer as limitações de seu trabalho faz com que a obra se distancie do maniqueísmo e tenha a credibilidade que merece. Sacco se coloca sempre como alguém de fora e não comete a heresia de sugerir uma solução para um caso que nem os envolvidos têm uma resposta definitiva. Vale a leitura.

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Avaliação: Excelente!

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: 
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