É bem verdade que HQs, sobretudo mainstream, como as da Marvel e da DC, não são frequentemente caracterizadas como arte, muito embora o próprio conceito de arte seja difícil de delinear. Alguns quadrinhos, porém, caminham nessa direção. Exemplos são Sandman e Asilo Arkham: uma casa séria em um sério mundo, classificado entre as melhores produções de Grant Morrison e da DC pelo Ultimato do Bacon.

A publicação aqui em destaque é mais uma delas, embora bem menos conhecida: O que aconteceu com o Capitão Stone?, com roteiro e arte de Liam Sharp e contribuição de sua companheira, Christina McCormack. Um dos principais motivos de podermos considerá-la uma obra mais artística são os desenhos e pinturas de Sharp, conforme veremos adiante, e a maneira como somos levados de forma criativa à reflexão. O caminho e as conclusões que cada um vai trilhar, no entanto, podem ser dos mais diversos.

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Capitão Stone

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O encadernado de luxo lançado pela Mythos em junho de 2018 – originalmente lançado pela Titan Comics em 2014 – traz 192 páginas com diversos acréscimos na parte final da publicação que, aliás, são um prato cheio para quem gostou de imergir na história.

Capitão Stone: O que aconteceu com o Capitão Stone? (2018) - O Ultimato 1

Vale a pena saber que a obra, antes de ser impressa pela Titan Comics no idioma original, foi publicada pela Madefire em uma plataforma chamada de Motion Book, por meio de onde é possível ler quadrinhos em uma experiência completamente nova, com imagens dinâmicas em camadas, artes em 360º e trilha sonora selecionada pelos autores para cada trecho da obra.

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Qual é a trama de Capitão Stone Vol. 1

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A premissa do enredo é bem simples. Capitão Stone, o único herói do mundo, desapareceu. Mas são todos os contornos dessa história que dão graça ao roteiro. Stone é o típico estereotipo do mito heroico norte-americano. Amado pelos conservadores e odiado pelos barões das drogas, traficantes e criminosos. Por vezes, era violento, mas apenas contra os que mereciam, digamos assim. Conforme é contado, ele trazia tantos resultados que fazia até os liberais* reconhecerem sua competência.

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Capitão Stone

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Nos anos 1990, neste universo, a imagem do Capitão Stone foi impressa em inúmeros produtos da cultura de massa, incluindo action figures, filmes blockbusters, revistas em quadrinhos, lancheiras escolares, e tudo o que uma celebridade tinha direito. O herói tornou-se uma figura lucrativa e frequente na grande mídia, chegando a ser entrevistado por revistas como a Playboy Playbunny. E não era para menos, Stone era comparado a Elvis, Madonna e Michael Jackson.

É nessa frenesi que nos deparamos com um pouco da visão do autor sobre como os mitos dos super-heróis adentram na cultura pop. E você deve ter percebido que a maioria dos verbos acima estão no passado. Isso porque, quando a história é contada, Stone já não é mais amado pela população norte-americana e mundial. A derrocada de sua imagem se dá após tornar pública sua identidade secreta e fazer declarações desastrosas no meio dos anos 2000.

Um playboy de atitudes duvidosas e filho de um magnata da mídia ser o maior – e único – herói do planeta acabou gerando revolta da população e aguçando ainda mais o interesse da mídia fofoqueira. Ora, se uma personalidade é lançada ao grupo do estrelato, já sabemos como será retratada em momentos de vulnerabilidade pelos paparazzi. Para piorar, aparentemente, ele mesmo não se ajudava, fazendo coisas como a gravação de um vídeo denunciando a aparição de extraterrestres entre nós. Teria Stone endoidado?

Mas Capitão Stone está mesmo desaparecido. Até para nós, leitores, visto que somos apresentados a ele sempre pela visão de outros personagens e da mídia. Nas primeiras páginas, conhecemos apenas Charlotte Chance, uma misteriosa e carismática escritora que possui mais coisas em comum com o herói do que nós – até então – podemos imaginar. E é ela quem acaba investigando seu sumiço.

São esses personagens “secundários” como Charlotte que nos instigam ao serem impecavelmente bem trabalhados. Eles vão aparecendo, assim como seus relacionamentos, em um timing misterioso, meio de filmes noir.

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A arte de Sharp

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Capitão Stone

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Folheando as páginas da publicação vemos o lado mais artístico de Sharp exposto nas pinturas e desenhos feitos para este primeiro volume. Como ele mesmo diz, “a obra Cap. Stone teve como base a integridade criativa, não experiência comercial.” O artista que já desenhou Juiz Dreadd, Mulher-Maravilha, Batman e mais recentemente Lanterna Verde nos mostra artes ricas, criativas e sem se prender a padrões estéticos.

Em determinadas partes da HQ, por exemplo, trechos da história são mostrados em um quadro por página (splash pages) de forma seguida. Algo inimaginável em publicações periódicas de páginas limitadas. Ora vemos desenhos mais realistas, ora mais caricaturados, algumas vezes lembrando os quadrinhos de contornos exagerados dos anos 1990 e muitas outras nos remetendo ao Dave McKean no Asilo Arkham. Tudo perfeitamente bem encaixado.

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Vale a pena a leitura?

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Sim, ainda mais se você procura algo diferente das histórias de heróis que conhecemos por aí. Brincar com os clichês desse tipo de narrativa e romper a quarta parede não são novidades nos quadrinhos, como bem sabem os leitores de Deadpool, onde vemos esses recursos em abundância. Mas aqui isso é feito com requinte. De fato, como mencionado no início do texto, me parece que podemos apreciar algo mais artístico e conceitual.

Confesso que quando iniciei a leitura, não sabia que este era o volume 1 de 6, o que ao meu ver, foi uma grata surpresa, pois me deixou com muita vontade de ler a continuação. Para quem procura uma história 100% fechada, obviamente, não é o caso.

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Capitão Stone

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Por curiosidade, tive acesso também ao Motion Book do Capitão Stone – ainda sem tradução – baixando o aplicativo Madefire. Pela plataforma, essa primeira parte da história é dividida em 10 episódios e uma breve abertura intitulada Confidential. As duas primeiras têm acesso gratuito, já cada uma das restantes sai por R$ 7,99.

A experiência é realmente incrível. O avançar dos textos e imagens intercaladas de forma sincronizada, com áudios impecavelmente selecionados, dão uma sensação de imersão muito divertida. E os autores, preciso dizer, fizeram um grande trabalho em tornar as duas experiências, tanto a impressa quanto a digital, muito interessantes. Cada uma a seu modo.

*Nos EUA, os liberais são aqueles que estão mais próximos do que costumamos chamar de esquerda aqui no Brasil. Por isso, o autor acaba fazendo uma brincadeira com isso, onde os cidadãos que defendem os direitos humanos e combatem a violência acabam admitindo a competência do Capitão Stone, mesmo com seus métodos próprios e uso da força como referência.

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Ultimato do Bacon

Avaliação: Ótimo!

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Capitão Stone

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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