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Sin City O Difícil Adeus de Frank Miller – Baú de HQs

Em 13 de Jun de 2023 7 minutos de leitura
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Conheça o clássico que redefiniu o noir nos quadrinhos em Sin City: O Difícil Adeus de Frank Miller

Sin City é um dos pontos mais altos da carreira de Frank Miller, reunindo várias histórias policiais (crime comics) publicadas nos anos 1990. Todas sobre personagens de moral duvidosa em uma cidade corrupta e violenta ao estilo Gotham, com investigações, mistério e femmes fatales. A atmosfera é lúgubre e notívaga, no P&B de alto-contraste que revitalizou o subgênero noir.

Vale contextualizar a obra. Os anos 1980 haviam colocado Miller entre os maiores quadrinistas da época, circulando entre Marvel e DC Comics produzindo clássicos como O Cavaleiro das Trevas (1986), A Queda de Murdock (1986), Elektra: Assassina (1986-1987) e Batman Ano Um (1987).

Na Casa das Lendas, ele publicou a primeira HQ totalmente autoral: Ronin (1983-1984). A liberdade foi uma das formas que a DC usou para tirar Miller da concorrência nos primeiros anos daquela década. E a influência da cultura oriental, que tinha dado pistas na run do Demolidor (1979-1983), passou a ter destaque.

Mas o fim dos anos 1980 marcaram uma insatisfação de Frank Miller – e de outros quadrinistas – com a DC. Foi quando o autor passou a defender com ímpeto os direitos autorais e atacar a censura nos quadrinhos. Como consequência, Miller levou suas ideias para a Dark Horse Comics, onde teria total liberdade para criar Sin City e, finalmente, trabalhar em sua temática preferida de forma “raiz”.

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Seis edições da DPC, revista que publicou Sin City pela primeira vez

A primeira história foi publicada originalmente em 13 partes, chamada apenas de Sin City, nas revistas Dark Horse Presents: Fifth Anniversary Special e Dark Horse Presents (DHP) de #51 a #62, entre 1991 e 1992. No mesmo ano, a obra saiu em volume único com o título The Hard Goodbye (O Difícil Adeus).

No Brasil, a editora Globo publicou o quadrinho em 1996 como Sin City: Cidade do Pecado, adaptação do título original – sin é pecado em inglês –. A Devir, atual responsável pela série por aqui, chegou a publicar a obra em capa cartonada em 2005 e em 2012. No mês de março de 2022, a editora lançou a versão de luxo, capa dura, totalizando 224 páginas. Agora, com o título Sin City: O Difícil Adeus.

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No Brasil, a HQ saiu primeiro em capa cartonada, respectivamente em 1996, 2005 e 2012

Índice

Qual o enredo de Sin City: O Difícil Adeus de Frank Miller

A HQ tem início com a cena de amor entre Marv e Goldie. O personagem acorda e percebe que a companheira – que conheceu naquela noite – está morta. Minutos depois, a equipe da polícia bate à porta e começa a ação frenética, com Marv atacando os agentes em seu caminho e fazendo uma fuga cheia de acrobacias, algo que nos acostumamos a ver na arte de Miller desde a run do Demolidor (1979-1983).

Marv é o típico anti-herói noir que protagoniza a história como narrador personagem em tempo real. Nos recordatórios acompanhamos os monólogos mentais do brutamontes analisando cada situação, expondo como se sente e investigando a morte de Goldie. Ele não é propriamente um detetive, mas foi declaradamente inspirado no investigador casca-grossa Mike Hammer, de Mickey Spillane (1918-2006), famoso na literatura de ficção criminal.

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Miller é impecável no P&B estilizado de alto contraste em Sin City

O protagonista saiu recentemente da detenção, perturbado e com marcas de violência que desfiguraram seu rosto. Por algum motivo, Goldie foi a primeira dama que o deu atenção, mesmo que por poucas horas. Aquilo seria o suficiente para ele querer vingar sua morte. Apesar de bruto, Marv tem alto senso de moral e certo cavalheirismo com as mulheres.

Algumas parcerias são importantes. Lucille é a agente da condicional que fornece remédios psiquiátricos – aparentemente sem prescrição – à Marv. No começo da aventura, descobrimos o famoso Bar da Kadie, uma das áreas mais “seguras” de Sin City, onde Nancy trabalha. O ex-detento frequenta o local e as duas mulheres têm gratidão por favores do passado, o que lhe renderá algum apoio.

A investigação de Marv é bruta, cheia de mortes, conseguindo nomes um por um para fechar o quebra-cabeças. A trama envolve “peixes grandes”. Entre eles, nesse fio da meada, conheceremos um assassino em série chamado Kevin, muito bem construído. A relação de ambos será desafiadora e violenta.

Cena clássica na abertura de Sin City: o encontro de Marv e Goldie. O autor carrega na sensualidade

Marv tem, ainda, uma importância gigante na série: é o primeiro responsável por nos apresentar Basin City – nome oficial da cidade – e suas rotinas. Na edição, descobrimos que ela cresceu e se urbanizou a partir da prostituição financiada pela família Roark, na época do Velho Oeste. Os herdeiros são “donos” da região até hoje.

A arte e as influências de Frank Miller em Sin City: O Difícil Adeus 

A arte é um pilar fundamental em Sin City. As primeiras características são o P&B de alto contraste e as linhas retas. Miller teve autoridade sobre tudo. Escrevia, desenhava, letreirava e determinava o tamanho de cada trama.

O domínio de perspectiva de Miller: cômodos e becos claustrofóbicos normalmente antecedem a ação

Tanto os quadrinhos que ele lia na juventude – crime comics e de guerra – quanto os primeiros filmes que marcaram o noir são P&B, com caprichado trabalho de luz e sombra. Quando Miller chegou a Nova York em 1976, seu portfólio indicava a preferência por contos policiais. Nos anos 1980, o que pôde fazer foi levar essas influências a personagens como Batman e Demolidor.

Esses dados ajudam a entender o que significou Sin City para Frank Miller, onde teve carta-branca da Dark Horse Comics. Desde O Difícil Adeus, a série é uma mistura de antigas características das obras noir com o estilo mais autoral e estilizado de Frank Miller, que rejuvenesceu o gênero.

Em grande parte dos quadros, o artista foca nos traços dos personagens, as vezes apenas silhuetas, e não detalha os cenários para além de luzes e sombras que entram por frestas e janelas. É o que aumenta a sensação de mistério.

O texto em off e a chuva marcam o ritmo nos momentos mais introspectivos e poéticos da HQ

Em outros momentos ele carrega a arte de esmiúces. A passagem de um estilo para o outro é visível logo no primeiro capítulo. Das cenas de amor entre Marv e Goldie, de alto contraste em meia-luz, até a hora em que ele acorda para a dura vida real. O quarto detalhado passa a ideia de sobriedade, de que ele saiu do sonho de amor, e ainda por cima nos carrega de claustrofobia.

Táticas semelhantes são feitas ao longo de toda a obra. Miller sabe usar recursos da arte para delinear o ritmo, a tensão e as emoções do leitor – e dos personagens – ao seu modo, como um diretor de cinema.

Nesse sentido, outro ponto destacável na arte são as sequências de ação que imprimem agilidade e movimento. Os filmes de artes marciais e as técnicas do genial Bernard Krigstein (1919-1990) – que também investia na complexidade psicológica – já foram citados como referências pelo quadrinista. O ritmo, quando necessário, é reduzido com longos textos em off, técnica herdada de Will Eisner (1917-2005).

Sin City (1991), Elektra Vive (1990) e O Cavaleiro das Trevas (1986). O gosto de Miller por quadros de perfil é recorrente e acentuado no P&B de Sin City

Esses textos marcam em Miller as características literárias do Romantismo e do Terror Psicológico – típico de noir –, como o foco em reflexões internas e subjetivas com paixão, saudade, sentimentalismo, sofrimento amoroso, suspense e paranoia. Ali, Miller simula a linguagem informal e das ruas e foca nos pensamentos do personagem.

Na literatura, Dashiell Hammet (1894-1961), Mickey Spillane, supracitado, e James Ellroy são nomes que inspiraram Miller. Na arte, o alto contraste era característico de Johnny Craig (1926-2001), Milton Caniff (1907-1988), Hugo Pratt (1927-1995) e, principalmente, José Muñoz. Harvey Kurtzman (1924-1993) é outro citado por Miller e podemos comparar facilmente o detalhismo das construções de alvenaria de ambos. Nenhum dos artistas é vinculado aos super-heróis. Normalmente a quadrinhos de guerra, policiais ou terror.

O criador do The Spirit influencia, ademais, na concepção de protagonismo da cidade, que passa de Nova York para Basin City, no caso de Miller. Ela determina a história e a vida de todos os personagens. É interessante perceber que em uma região desértica, a tempestade cai raramente e em momentos dramáticos, quando os longos traços de chuva respondem severamente a silhueta do Marv.

Miller se autorreferencia. Marv e Murdock se afundarão num espiral de loucura por suas amadas

Isso nos mostra o que Frank Miller chama de “expressionismo” nos quadrinhos, segundo ele, “a manipulação ou distorção do desenho onde a realidade externa representa a realidade interna dos personagens.” Além de Eisner, Orson Welles e Fritz Lang são cineastas que o autor pontua como referências na técnica.

É verdade que Miller repete algumas cenas e sequências que aparentemente ele gosta de desenhar, como vidros de janelas e carros quebrando com a passagem de um personagem, as prisões em forma de jaulas que ele usa desde a fuga do Mercenário na icônica Daredevil (1964) #181 – onde é possível ver a gigantesca evolução do artista –, os traços de sensualidade feminina…

A autorreferência, quase que como uma homenagem aos super-heróis que redefiniu, aparece diversas vezes em Sin City. Algo visto na desenvoltura entre os prédios e robustez física de Marv que lembra o Batman de O Cavaleiro das Trevas (1986), com o casaco parecendo uma capa preta. Sem falar na semelhança entre Goldie e Elektra.

Imagens de Elektra Vive (1990), O Difícil Adeus (1991) e do longa de 2005

Vale a pena ler?

Os quadrinhos policiais estavam em baixa desde os anos 1950, muito por causa da censura do Código dos Quadrinhos (Comics Code Authority) e do Macarthismo. Com Sin City, Miller retomou o interesse dos leitores – consequentemente dos artistas e editoras – para o gênero.

Ao redefinir a forma de fazer noir com tamanha maestria, acabou influenciando outras mídias. Não à toa, a franquia resultou em dois filmes. Sin City: A Cidade do Pecado (2005) e Sin City: A Dama Fatal (2014), fieis a HQ inclusive esteticamente e dirigidos por Robert Rodriguez e Frank Miller. O primeiro se baseou em O Difícil Adeus para um dos três contos filmados.

Sin City dá o pontapé inicial em alto nível, unindo roteiro e arte para que trabalhem em prol um do outro. O manejar dos momentos de ação e suspense são impecáveis, com direito a um psicopata digno dos maiores thrillers. É daquelas obras que só tem o efeito desejado em P&B e a narrativa vai num crescente até a conclusão, chocante. Difícil largar o livro.

Essas são algumas das características que deram a Miller três prêmios Eisner em 1993, nas categorias Melhor Roteirista/Artista, Melhor História Serializada, e Melhor Desenhista/Arte-finalista (publicações em preto e branco). Vale conhecer…

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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