Ultimato do Bacon

Pinóquio de Winshluss – O Ultimato

Em 5 de Out de 2023 4 minutos de leitura
Pinóquio de Winshluss (4)

Conheça a HQ que subverte a história do boneco de madeira mais famoso do mundo em: Pinóquio de Winshluss

Pinóquio é considerada a maior obra do quadrinista e cineasta francês Winshluss – pseudônimo de Vincent Paronnaud –, que codirigiu os longas Persépolis (2007), inspirado na HQ de Marjane Satrapi, e Frango Com Ameixas (2011).

A primeira publicação no Brasil foi em 2012, por meio do selo Globo Livros Graphics, que ganhou o Troféu HQ Mix de 2013 na categoria “Melhor Edição Especial Estrangeira”. A edição original, de 2009, recebeu o prêmio de melhor álbum no Festival de Angoulême daquele ano.

Agora, no fim de 2022, a editora mineira Moby Dick republicou o quadrinho por aqui em capa dura, com 208 páginas e alguns rascunhos do autor como extras.

Cabe esclarecer de pronto. Quando falamos em Pinóquio, logo vem à cabeça a clássica animação da Disney de 1940 ou, mais recentemente, a adaptação de 2022 para a Netflix, com direção de Guillermo del Toro e Mark Gustafson.

Ambas seguem a obra do italiano Carlo Collodi, Le avventure di Pinocchio: storia di un burattino, publicada em capítulos entre 1881 e 1883 em um jornal infantil. Winshluss usa o romance apenas como inspiração, na verdade, subvertendo-o.

Se Collodi faz uma história moralizante que busca ensinar crianças a estudar e a não mentir, Winshluss constrói um enredo cruel e perturbador que funciona muito mais como crítica a ganância da humanidade – entre tantas outras coisas ruins –.

Pinóquio de Winshluss (1)

Na história de Winshluss, Pinóquio é um robô 

Qual a trama de Pinóquio de Winshluss

O início da HQ mostra o galão radioativo jogado de um navio contaminando um peixe. Na página seguinte, um maníaco-depressivo dialoga alcoolizado com seu gato. Após verem uma vizinha bem apessoada fazendo exercícios, o homem brinca de roleta-russa consigo e com o bichano, que leva a pior.

É quando iniciamos, de fato, a história de Pinóquio. Tudo fará sentido depois. Gepeto é um inventor “certificado” e cria um robô para servir de arma de guerra ao exército, com o objetivo de “lucrar milhões”. Ao invés do boneco de madeira, temos um autômato praticamente indestrutível que cospe chamas pelo nariz e transforma os dedos em tentáculos.

Mas a personalidade do protagonista é passiva, olhar distante. Gepeto e a esposa logo o testam nos afazeres domésticos, com sucesso. Enquanto o inventor vai negociar a cria em área militar, Svetlana Gepeto descobre utilidades mais “picantes” para o robô e acaba morrendo. É quando, em uma cena sordidamente incrível de humor ácido e terror, podemos imaginar o que está por vir.

Pinóquio sai andando e é encontrado por dois malandros – versões do gato e da raposa – e vendido para a Stromboli inc., fábrica de brinquedos toda referenciada na Revolução Industrial, onde os “trabalhadores” são crianças. O autômato, criado para a guerra, fabrica… armas. Disfarçadas de brinquedo. O resultado é catastrófico e, novamente, o protagonista foge, sempre apático – se é que dá para falar isso de um robô –.

Pinóquio de Winshluss (3)

O objetivo de Gepeto é lucrar com a venda de Pinóquio ao exército

Enquanto Gepeto busca sua criação improvisando pelos mares, Pinóquio passará por diversas “aventuras”, incluindo uma estadia na Ilha Encantada e sempre sendo explorado por quem está a sua volta.

Ao mesmo tempo, acompanhamos diversas outras tramas se cruzarem e evoluírem, como a da Branca de Neve e os sete anões – cheios de fetiches sexuais sádicos –; do inspetor psicótico Bob Javier, que investigará um crime do início da HQ; de uma família do campo ao estilo dos Kent do Super-Homem; do contrabandista que trabalhou na venda de Pinóquio e do seu ajudante que se transforma em um fanático religioso.

Todas se encaixam perfeitamente. Porém, a que chama mais atenção é a da barata falante Jimmy – inspirada, obviamente, no Grilo Falante –, que é expulsa de casa pela mulher e encontra na cabeça de Pinóquio um lar.

É esse personagem, espécie de alívio cômico, que em traços P&B e rústicos diferentes do resto da HQ, parodia a voz da razão do protagonista. Única subtrama com recordatórios e balões de texto.

Vale a pena ler?

Comecemos pela arte, caricata e engraçada, servindo otimamente ao enredo criado por Winshluss. Remete a cartunistas antigos da primeira metade do século XX.

Pinóquio de Winshluss (2)

A arte de Winshluss é cartunesca e lembra artistas do início do séc. XX

A história traz referências a outros contos de fadas – também os subvertendo – e a questões históricas e factuais que contribuem para a genialidade do quadrinho. É impressionante como o autor consegue unir tantos males da humanidade com olhar crítico, sem se perder entre os temas ou deixar o fio da(s) trama(s) em segundo plano. Falamos de perversão, tirania, guerra, capitalismo selvagem, fanatismo religioso, exploração do trabalho, violência e barbárie, preconceito, poluição, desigualdade social, tráfico de órgãos, abuso sexual e infantil…

É o suco do pior que há. E o próprio Pinóquio, justamente o ser inanimado, pode servir de espelho para uma antiga discussão sobre a natureza do ser humano: nascemos bons ou maus?

Pinóquio tem uma conclusão bem elaborada e, quanto ao robô, reflexiva. É válido destacar a habilidade de Winshluss em transmitir as sequências de acontecimentos e emoções com os recursos da narrativa muda. Apesar de a obra escancarar o lado mau da humanidade com muito cinismo e humor ácido, Winshluss encontra formas de indicar que há espaço para o afeto e o amor no meio dessa bagunça.

Gostou do texto? Leia outras matérias do David Horeglad (HQ Ano 1) para o UB!

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Avaliação: Excelente!

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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