Ultimato do Bacon

O Bulevar dos Sonhos Partidos (2017) – O Ultimato

Em 14 de Jun de 2022 5 minutos de leitura

Uma ficção tragicômica saída da Raw para reescrever a história da animação? Veja isso em: O Bulevar dos Sonhos Partidos

Kim Deitch – destaque no underground dos anos 1960 – é um daqueles gigantes dos quadrinhos que, ironicamente, tem pouquíssimas obras publicadas no Brasil. Para ser mais exato, uma. O Bulevar dos Sonhos Partidos (2017), lançado nos Estados Unidos em 2002, é também a primeira HQ trazida ao país pela editora Todavia – mesma de Bone –. P&B, capa cartão, 160 páginas.

Nelas, Deitch conta a história da animação focada no período pós-Disney/Disneylândia de parques faraônicos. A HQ, porém, faz isso como que dentro da biografia de Ted Mishkin e sua criação, o malicioso gato azul Waldo.

A permanente dúvida se Waldo – que dialoga com Ted e outros personagens – existe ou se é um sintoma psicótico, a complexidade e detalhamento da trama criada por Deitch e o ar de metaficção delirante são diferenciais que, juntos, tornam a obra única. 

Neste último caso, a fronteira entre ficção e realidade é instigante. A arte dos quadrinhos é utilizada para pensar a arte e a história da animação – que cruzamento! –. E a partir do texto introdutório de Deitch, fica difícil compreender o quanto de O Bulevar dos Sonhos Partidos é inspirado em fatos reais, o quanto é uma extensão da própria vida do autor ou o quanto vem da imaginação dele, inspirado pela nostalgia e conhecimento da época.

A saber, Kim é filho do animador, ilustrador, e diretor Gene Deitch, que passou por Columbia, MGM e Paramount e participou de produções como Popeye e Tom e Jerry. Por fatos fictícios ou não, o universo que somos apresentados em O Bulevar dos Sonhos Partidos é incrivelmente rico e minucioso. E os personagens são, nitidamente, reconhecíveis e inspirados em pessoas reais, assim como os movimentos da indústria em pauta.

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A trama não faz fronteiras entre real e imaginário. As linhas dos quadros também não!

Qual é a trama de O Bulevar dos Sonhos Partidos

Deitch afirma, de início, irônico, que tudo na obra é a mais absoluta verdade. O protagonista é Ted Mishkin. Ou talvez o gato Waldo. Mas vamos considerar o primeiro, para ficar mais fácil. Ted é um ilustrador que, fã e aprendiz de Winsor Newton, acaba indo trabalhar no estúdio das Fábulas Animadas Fontaine, onde o irmão, Al Mishkin, é gerente de produção.

Newton tem papel importante. Além de inspirado no Winsor McCay da vida real – pioneiro da técnica de animação que posteriormente seria utilizada por nomes como Walt Disney –, torna-se um espelho para Ted ao longo da trama. Na juventude, o protagonista trabalhava para o mestre em um vaudevile, espetáculo que une animação, teatro e números circenses. Num bagunçado reencontro, Newton clama: “Não termine em uma linha de montagem deplorável como a daquele filisteu das Fábulas Fontaine!”

Na década de 1930, onde se passa a maior parte do roteiro, a Disney já faz sucesso estrondoso e a Fontaine busca formas de não ficar para trás. Waldo, seu maior sucesso, é ácido e surrealista, no maior estilo Gato Félix e Betty Boop. Mas os personagens mais fofinhos, palatáveis e mornos estavam ganhando popularidade.

Fred Fontaine, que abriu o estúdio na década de 1920 pensando em baratear espetáculos como as animações valdevile de Newton – que precisavam de dezenas de profissionais a cada apresentação –, quando em queda, estava disposto a trazer o know how lucrativo da Disney. Para isso, convida Jack Schick, ex da concorrente, e encarrega-o de dar nova cara às Fabulas Fontaine. O resultado são bochechas grandes e rosadas ao gato.

Mishkin, fiel a seu personagem e a suas raízes – ou não –, começa a se afundar cada vez mais. O convívio dele com Waldo para além da prancha preocupava o irmão desde a infância – sim, Waldo era seu amigo imaginário! –. Aprofundar-se no alcoolismo e descobrir que Lillian, amor platônico, tinha um caso com Al, é a gota d’agua para um ataque.

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As páginas duplas de Deitch são tão belas e intrincadas quanto o roteiro. Cheias de significado

O cartunista é diversas vezes internado no Sanatório Berndale Acres, em Croton, Nova York. Momentos em que encontra e tem ideias artísticas mirabolantes com Newton. Lillian, também animadora, entra no grupo após uma visita.

A popularização dos super-heróis na Segunda Grande Guerra tem espaço na HQ. Em uma das voltas do Berndale para Fontaine, Ted cria o Rato Rocket, um super-rato antropomórfico que acaba criando uma oposição ao gato Waldo. É o suficiente para, no lugar-comum, resgatar certo sucesso ao estúdio.

A narrativa não é linear. Mas soa biográfica pois vamos desde a infância de Ted até sua velhice, na década de 1990, em um reencontro dos antigos e novos profissionais da Fontaine. O elo de conexão de Ted com Deitch é o sobrinho Nathan Mishkin e um cachimbo “mágico” que fumaram, jovens, em seu primeiro encontro com o gato azul.

Nesses quase cem anos retratados, além dos acontecimentos que determinariam os rumos da animação norte-americana, vemos tramas complexas de vida. Histórias de amor, as malandragens do galanteador Al, a dicotomia de um artista entre sua verdade e a necessidade de ganhar dinheiro, os apuros de Lillian no meio de todos os desajustados, mudanças de paradigmas de gerações, triângulos amorosos e tragédias.

Vale a pena ler?

Na primeira leitura é possível imaginar o grande valor do que temos em mãos, mas a certeza vem com a releitura ou com a própria reflexão sobre tudo que vimos na obra de Deitch. Algumas respostas não vêm de primeira. Outras, ficam propositadamente em aberto.

Em O Bulevar dos Sonhos Partidos tudo é feito de forma muito intrincada e detalhista. Na verdade, quando Deitch, na introdução, não faz questão de separar fatos de ficção, indicando que conviveu com alguns dos personagens – incluindo o próprio Waldo! –, temos a sensação de que conhecemos um mito.

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Ted e Lillian antropomórficos em sua própria animação. A arte imita a vida ou a vida imita a arte?

Com o virar das páginas, a sobreposição de enredantes camadas confirma isso. São as realidades do Deitch, do Waldo, dos Mishkin, do Newton, da Disney, das Fábulas Fontaine, da Fleischer Studios, da Terrytoons… Haja semiótica para elucidar tanta coisa.

Vale dizer que o gibi apresenta uma analogia – entre tantas outras – de como o que é criativo ou revolucionário, após crescer e se popularizar, pode ser é abarcado pelo mercado. Não foi assim até com o movimento antissistema dos hippies? O crescimento da Disney marca justamente a passagem da animação autoral, de personalidade e quase artesanal para a indústria do entretenimento. Da arte à comunicação de massa. É possível ser ambas?

O velho dilema entre a loucura e a criatividade também é visto com destaque na HQ. Curiosamente, nos períodos mais sãos, ou Ted não consegue produzir ou faz sucesso com figuras pré-moldadas, como o Rato Rocket. Muito embora Deitch pareça ironizar os insights de grandiloquência de Newton, associando-os a momentos bizarros do sanatório, por exemplo. É uma das diversas questões de O Bulevar dos Sonhos Partidos que rendem muito no pós-leitura.

O quadrinista brinca, ainda, com o lance da criatura como alter ego do criador, mesmo não intencional, como quando uma representação do Id ou de outras camadas do ego. A análise que Waldo faz de cada momento da HQ é certeira para contribuir a tal raciocínio.

A arte de Deitch é ótima. Cartunesca de traços limpos, muitas hachuras, mais habitual para quem investe o tempo em artistas do underground. Os mais jovens Joe Sacco e Charles Burns vêm à mente. Ambos, como Deitch, passaram pela lendária revista Raw, onde foi publicado o primeiro capítulo desta obra em 1991. As sequencias e as construções dos quadros exploram a nona arte como se deve.

Em conclusão pessoal, refletindo o quão cíclica é a realidade em que vivemos, talvez Deitch mostre a efemeridade do romantismo que costumamos ter com o passado, que só importa para um determinado grupo de pessoas em um determinado período. Mas importa, não se esqueça disso!

O Bulevar dos Sonhos Partidos é um romance histórico, delirante, lúgubre e tragicômico. Crítica e declaração de amor ao universo da animação. Pode servir de espelho aos quadrinhos. Deitch, em sua obra máxima, mostra que é possível unir tudo isso de forma magistral.

*Um registro para o ótimo trabalho de tradução da Maria Clara Carneiro, que lima estrangeirismos. Na HQ, não existem boulevards nem vaudevilles.

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Avaliação: Impecável

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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