Imagine uma época em que as aventuras de seu herói preferido vinham em tirinhas nas páginas de um jornal e você ia lendo um pequeno trecho a cada dia. É assim que foram publicadas as primeiras histórias do Fantasma.

Criado por Lee Falk em 1936, ele foi o primeiro herói a usar colante e máscara sem pupilas visíveis – hoje, uma das marcas do Batman –. No universo concebido por Falk, os supersticiosos habitantes da Bangala acreditavam que o Fantasma era um guardião imortal das selvas africanas. Um ser que aparecia há mais de quatro séculos.

Na verdade, a época ainda não era dos “supers” – o Super-Homem apareceu pela primeira vez em 1938, na famosa Action Comics #1 – e a identidade secreta do Fantasma era Kit Walker, um homem relativamente comum sempre equipado de sua fivela de caveira e duas pistolas M1911, além de alguns truques para impressionar tanto seus inimigos quanto os nativos.

Zero superpoderes. Impossível não citar a sempre providencial ajuda de seu lobo Capeto e de seu cavalo Herói. A sina de proteger as florestas africanas era passada de geração a geração na família Walker, desde que um de seus antepassados, na Era das Grandes Navegações – também chamada de Era dos Descobrimentos –, sobreviveu a um ataque de piratas enquanto o pai foi morto.

Desde então, ele jurou combater todas as formas de pirataria e roubo e prometeu que isso continuaria por todos os seus descendentes. E assim chegamos ao nosso herói, o 21º Fantasma.

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Qual é a trama de Piratas do Céu

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A primeira aventura do Fantasma foi Os Piratas Singh, publicada diariamente entre os meses de fevereiro e novembro de 1936. Dois dias depois, tem início uma das sagas mais marcantes do “espírito que anda”: Piratas do Céu, presente nos jornais do dia 9 de novembro de 1936 ao dia 10 de abril de 1937, também em tiras diárias.

No Brasil, a aventura saiu com poucos dias de atraso em relação aos EUA, nas páginas do Correio Universal no Rio de Janeiro e d’A Gazetinha em São Paulo. Os desenhos eram de Ray Moore, ainda em preto e branco (as vezes com cores como azul, vermelho e verde substituindo a preta).

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Piratas do CéuLogo de cara, vemos o Fantasma preso em uma masmorra dos Piratas Singh

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A história começa com o Fantasma em uma masmorra para ser executado pelos Piratas Singh. Sala, a concubina de Kabai Singh, líder do bando, acaba se apaixonando pelo herói e o ajuda a escapar.

Enquanto isso, um esquadrão de aviões comandado pelo Capitão Horton, aliado do Fantasma, bombardeia o esconderijo dos Singh. Sala acaba sendo atingida por uma das explosões e, antes de morrer, conta ao herói que era uma espiã infiltrada entre os Singh e, na verdade, pertencia aos Piratas do Céu.

Assim começa o mistério sobre os piratas voadores. Sala acaba sobrevivendo e quando o Fantasma vai ao seu aposento no hospital militar descobre que a mulher já havia fugido, deixando um soldado desmaiado. No lugar errado e na hora errada, Capitão Horton acaba interpretando que o Fantasma é o líder dos Piratas do Céu, ajudou Sala a fugir e tentou matar um de seus homens.

A trama está armada. Nela, acompanhamos toda a dificuldade do Fantasma em se ver livre de seus antigos aliados. No meio da confusão, seu amigo Capeto acaba se ferindo e a tribo Bandar – de pigmeus africanos – é chamada para salvar o “homem que não pode morrer”. São os mesmos nativos que, por meio de uma comunicação de tambores, investigam o paradeiro dos Piratas do Céu e descobrem um avião indo em direção à Ilha das Garças.

Fantasma chega ao local e, da pior forma possível, descobre que suas suspeitas estavam corretas. A ilha abrigava o esconderijo dos piratas voadores e Walker acaba sendo capturado. Sala apresenta a base ao herói, que descobre que o bando é composto apenas por mulheres. A vilã, apesar de ainda apaixonada, se vê obrigada a não ajudar seu amor para não prejudicar o grupo.

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Piratas do CéuPáginas da edição especial do Correio Universal com a publicação de Piratas do Céu em 17/11/1937

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Em seguida, a líder das piratas, Baronesa, vai fazer uma visita ao Fantasma antes de executá-lo e, adivinha? Acaba se apaixonando por ele. A partir daí, a história tem diversos desdobramentos e vemos, paralelamente às aventuras, uma sequência de intrigas entre Sala e Baronesa disputando o espírito andarilho.

Será que o Fantasma convencerá o Capitão Horton e os militares que está do lado certo? Como fica Diana Palmer – a “Lois Lane” de Walker – no meio dessa confusão, cheia de concorrentes pelo coração do herói? Ela acreditará na versão de Horton ou do Fantasma? O Fantasma conseguirá colocar um fim nos inescrupulosos crimes das Piratas do Céu? Já sabe como descobrir, né?

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A volta das Piratas do Céu

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Quatro anos após o fim da publicação anterior, as Piratas do Céu voltam às tiras do herói. Desta vez, lideradas por Sala e com o apoio de uma nova personagem, Margo, a segunda no comando. A volta das Piratas do Céu foi publicada nos suplementos dominicais de 2 de maço de 1941 a 22 de fevereiro de 1942.

Na história, um jornal informa que um piloto foi baleado por piratas do ar durante um assalto. Novamente, o Fantasma precisa descobrir a localização do grupo. Na ilha principal de um arquipélago no Oceano Índico, Walker chama a atenção de vigilantes das Piratas do Céu ao seguir os rastros de compra e venda de combustível. Sala e Margo, com isso, vão até a cidade para descobrir quem está as investigando.

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Piratas do CéuAs tiras do Fantasma trazem muita ação, apesar de carregadas nos textos

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Fantasma, esperto, encontra Sala antes de ser visto e, não querendo se envolver com criminosas do sexo feminino, informa ao chefe de polícia da ilha que a líder delas está a poucas quadras dali. Incrédulos, os policiais pedem os documentos das moças e questionam onde elas moram. Sala e Margo explicam que vivem no continente, mas que existe um clube de garotas em uma ilha próxima.

Durante a visita à tal ilha, obviamente, as mulheres disfarçam seu esconderijo e, tratando os policiais com direito a recepção de primeira e comida em abundância, conseguem convencê-los de que não há nada de errado no lugar. A conclusão do chefe de polícia?

É a de que o Fantasma é o verdadeiro líder dos Piratas do Céu e estava tentando enganar as autoridades para despistá-los. Mais uma vez, o herói vai para trás das grades.

Apesar das semelhanças iniciais com a primeira história, a aventura segue com muitas reviravoltas e a chegada de elementos que dão bastante fôlego à trama, como uma negociação de sequestro entre um grupo de um submarino estrangeiro e as piratas que acaba envolvendo o Fantasma, a aparição de dois destroieres – embarcações de guerra – cheios de fuzileiros que atacarão a ilha das piratas, e por aí vai.

Só não dá para deixar de citar que, assim como na primeira aventura com as Piratas do Céu, existe uma disputa entre as vilãs pelo Fantasma. Agora, quem se apaixona por ele é Margo.

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O papel da mulher nas aventuras do Fantasma

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É muito válido confrontar o que vemos nessas aventuras do Fantasma com as atuais discussões sobre o lugar que a mulher ocupa na sociedade. Afinal, as três principais vilãs e líderes das Piratas do Céu têm uma coisa em comum: cair instantaneamente de amores pelo Fantasma.

O herói, porém, é sempre frio, racional, não se deixa estremecer pela paixão, pelas emoções e pelo desejo. Meio estereotipado, não?

Se de fato existem diferenças comportamentais e culturais entre homens e mulheres, elas não parecem fielmente retratadas nesta HQ do Fantasma. Mesmo quando falamos de uma época conservadora, em que os papeis de cada gênero eram bem mais distintos.

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Piratas do CéuBaronesa, a líder das Piratas do Céu, mais uma que cai de amores pelo espírito que anda

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O outro lado da questão é que Lee Falk inovou ao fazer um grupo bem-sucedido de criminosas ser composto exclusivamente por mulheres. O protagonismo feminino não estava apenas em ser o interesse amoroso de um herói daquela forma frágil e delicada.

Pelo contrário, elas eram inteligentes e habilidosas não só para pilotarem aviões, mas para terem estratégias e tecnologias, para esconder seu bando e conquistarem bons resultados em seus assaltos.

E Sala é uma típica femme fatale, daquelas que apareciam nos grandes clássicos noir. “Empoderada”, no jargão atual. E não há nada que integre tão bem a soma de inteligência e beleza femininas na cultura pop como uma femme fatale.

Aqui, no melhor dos sentidos: o de a mulher poder ser o que bem entender, sexy, inteligente ou as duas coisas, e à serviço dela mesma. É claro, mesmo esse tipo de personagem estava submetida ao lugar de alguém que precisava persuadir o homem – o herói, aquele que tem o poder ou o dinheiro – para ter o que queria.

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Fantasma: A Saga Piratas do Céu (1936) – Baú de HQs 1

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O problema é quando, aparentemente, a femme fatale é o próprio Fantasma. Não me entenda mal. Explico. Ele usa de artifícios – sensualidade, mistério, inteligência – muito semelhantes aos do arquétipo de femme fatale para atingir seus objetivos, enganando e manipulando as “pobres” mulheres apaixonadas que, ao menos em determinado contexto, são as detentoras do poder.

Me parece curioso perceber que esse jogo de percepções pode ser alternado em Piratas do Céu. Confuso? Mas é mesmo.

A pergunta que interessa: é uma história machista? Não necessariamente. A conclusão que tive é a de que a obra é totalmente ambígua nesse quesito. É lógico que o machismo é aparente em diversos momentos, como os já citados.

Porém, a mente aberta e criativa de Lee Falk em ir além do senso comum de seu tempo, apresentando mulheres agindo de forma praticamente inédita nos quadrinhos até então, é bem estimulante.

Quando uma mulher seria retratada atirando habilidosamente primeiro do que um homem em uma disputa de armas de fogo na década de 1930? Isso ocorre em A volta das Piratas do Céu.

O assunto é bem mais complexo do que o exposto acima, mas dá para termos algumas pitadas do que podemos refletir com esse quadrinho.

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Onde encontrar as Piratas do Céu?

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Se a vontade bater e quiser buscar nos jornais da época, como na edição especial do Correio Universal com esta história, prepare-se para desembolsar mais de R$ 3 mil. Mas eu sei que esse não é o caso da imensa maioria dos leitores – nem o meu –.

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Piratas do CéuCapas das edições da LP&M, de 1987, e da RGE, de 1975

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Piratas do Céu já foi publicada algumas vezes por diferentes editoras. Duas se destacam. É possível encontrá-la na série “Gibi Especial” da RGE que saiu em 1975. A editora LP&M também publicou a história com o nome de “Fantasma – O Bando do Céu” em 1987.

A experiência de ler uma dessas edições é provavelmente mais próxima do formato e cores originais. Infelizmente, é necessários bastante trabalho para quem pretende comprar a versão da RGE.

A boa notícia? É que existe uma edição belissimamente colorizada publicada em 2013 pelo selo Pixel com as duas histórias: Piratas do Céu e A volta das Piratas do Céu. Essa versão, chamada de “O Fantasma – Piratas do Céu: A Saga Completa!”, já foi reimpressa algumas vezes e é fácil de encontrar (inclusive no ao final do texto).

Comparando a tradução vista na edição da Pixel com a do Correio Universal é perceptível uma grande diferença. Desde a ortografia – “céu” se escrevia “céo”, por exemplo – até a atualização de alguns termos e estruturas das frases.

O importante é saber que a tradução mais recente está adaptada a linguagem atual, o que acaba sendo mais palatável na hora da leitura, em contrapartida do distanciamento da experiência original.

O que eu posso dizer é que, se você gosta de quadrinhos, principalmente de super-heróis, essa história faz parte da origem de todo esse universo e vale muito a pena, independentemente da versão.

E não é só pelo valor histórico. Apesar de parecer meio estranha de ler no início, com as tiras cheias de texto, tão quadradinhas, o montão de legendas, quando a leitura engrena você voa pelas águas e céus da Bangala até a última página.

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Piratas do Céu

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse

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