Ultimato do Bacon

Nunca é Natal em Nárnia

Em 25 de Dez de 2021 5 minutos de leitura
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Nessa época do ano, as pessoas estão às voltas com festividades, reuniões, presentes e o UB traz à tona algumas reflexões que giram em torno de um dos livros mais celebrados do mundo, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, de C. S. Lewis. Este, que é o segundo livro da coletânea em sete volumes de As Crônicas de Nárnia, trata de maneira imaginativa sobre os contos e histórias infantis repletas de aventura, ação e lições de moral para todas as idades.

Gênero literário repleto de temas que transcendem o lugar comum, as Crônicas transportam o leitor  para territórios inóspitos, acrescentando beleza, dimensão e riqueza através de aventuras associadas a valores morais, superação de desafios, honra e justiça. Acompanhe conosco essa jornada juntos aos irmãos Pevensie, Aslam e o Papai Noel (ele mesmo, o bom velhinho) num mundo de magia e poderes sobrenaturais.

Índice

Sempre Inverno, Nunca Natal em Nárnia

Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, C. S. Lewis começa sua história com a histeria provocada pela Segunda Guerra Mundial, com o medo tomando conta de uma Inglaterra invadida pelo exército inimigo e os irmãos Lúcia, Susana e Pedro, mais o primo Edmundo, sendo levados para uma antiga mansão pertencente a um velho e sábio professor, tio das crianças (na verdade, Digory Kirke, protagonista do primeiro livro O Sobrinho do Mago).

Por lá, Lúcia descobre um enorme guarda-roupa durante as brincadeiras e ao se esconder dentro dele, surpreendentemente vai parar em outro mundo, um lugar de frio congelante chamado Nárnia, em que tristeza e sofrimento abatem os seres fantásticos que habitam aquela terra mágica.

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Ela encontra o Sr. Tumnus, um fauno que vaga pela região em busca dos filhos de Adão e Eva (a narrativa de Nárnia é recheada dos mais variados conceitos e mitologias, dentre eles, o cristianismo, além de seres pertencentes a culturas diferentes como ogros, minotauros, centauros, grifos e toda sorte de seres fantásticos).

Tumnus é escravo de Jadis e o encarregado de sequestrar as crianças e levá-las até a bruxa. “Mas quem é a Feiticeira Branca? Ora, é ela quem manda na terra de Nárnia. Por causa dela, aqui é sempre inverno. Sempre inverno e nunca Natal.”

O Que Lewis Quer Nos Dizer?

Que não há espaço para esperança e imaginação num mundo onde todos vivem apenas para seus afazeres e nunca para o lazer; que o ser humano é um ser social por natureza e os relacionamentos são fundamentais. Sempre inverno significa ser parecido com a gélida Feiticeira Branca, desprovida de amor, sentimentos e imaginação num mundo estanque, parado (ou melhor, congelado!), que não cresce nem se desenvolve.

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Onde os seres humanos são apenas máquinas nas engrenagens de um mundo egoísta e mesquinho, peças que podem ser utilizadas até o desgaste e substituídas por outras. Os habitantes de Nárnia estão fadados – bem como muitos no plano real – ao anulamento de si (niilismo) e seu potencial construtivo, graças à interferência de Jadis, que furta a esperança de todos.

Para compreender a narrativa de Lewis, as qualidades e defeitos presentes em cada narniano é necessário “comprar” a ideia de um mundo de fantasia, um conto de fadas corrompido pela ganância e inveja. O autor, porém, ressalta que até mesmo um reinado de trevas tem seu fim.

Com a chegada de Aslam tudo começa a mudar e como diz o Sr. Castor, “venham só ver! Que surpresa para a feiticeira! O poder dela já está balançando. Não disse a você que, por artes dela, era sempre inverno e o Natal nunca chegava? Não disse? Pois vejam agora!”

Surge o Papai Noel

“E, de fato, lá em cima todos puderam ver. Era um trenó puxado por duas renas, com sinetas tilintando nos arreios. Renas muito maiores que as da feiticeira, mas eram castanhas, e não brancas. No trenó estava alguém que todos reconheceram à primeira vista. Era um homem alto, vestido de vermelho-vivo, com um capuz forrado de pele, uma barba branca, tão comprida que lhe cobria o peito.”

E ainda: “[…] todos o reconheceram porque, embora essas pessoas só existam em Nárnia, podemos vê-las em gravuras e ouvir a respeito delas, mesmo em nosso mundo – o mundo que fica do lado de cá do guarda-roupa.”

O bom velhinho diz: “Estou aqui, afinal! Ela me impediu de vir durante muito tempo, mas acabei chegando. Aslam está a caminho. O poder mágico da feiticeira já começou a declinar.” Papai Noel, enfim, chegou em Nárnia trazendo presentes, como de costume, e cada um dos Pevensie recebem instrumentos ao invés de brinquedos – instrumentos que os ajudarão a vencer os desafios que virão mais adiante.

Pedro recebe um escudo e uma espada, Susana recebe arco e flechas e Lúcia, ganha de presente um pequeno frasco de tônico curativo e um punhal (notaram paralelos com os jogos de RPG?)

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Outrossim, é interessante ver Lewis acrescentar na narrativa elementos do universo cristão ao qual pertencia, afinal, segundo as Escrituras Jesus enviou o Espírito Santo até os homens para que lhe fossem dados dons espirituais com propósito (1 Coríntios 12:11).

Também, “alguns recebem dom de liderança; outros o dom da fé, da sabedoria ou do discernimento. Alguns, dons de cura e habilidade de ajudar os outros” (1 Coríntios 12:28).

A maneira como Lewis relaciona o Papai Noel (Espírito Santo), a entrega de presentes (dons) e Aslam (Jesus) é muito respeitosa e não chega a ofender os puritanos de plantão. Lewis é mestre em mesclar suas convicções pessoais e imaginação como forma de desenvolvimento e nos faz repensar o Natal como algo que pode se tornar mais do que mesa posta e presentes natalinos.

Imaginário, Ressignificação e Esperança

Fantasia, devaneio, sonho, ficção. “Longe de ser a expressão de uma fantasia delirante, o imaginário se desenvolve em torno de alguns grandes temas, algumas grandes imagens que constituem para os seres humanos núcleos em torno dos quais as imagens se convergem e se organizam” (PITTA, 2017, P.19).

É óbvio que a figura do Papai Noel em Nárnia remete-nos à esperança, alegria e mudança de vida e tal só ocorre porque temos imaginação suficiente para criar nossos mundos por meio da imaginação e, assim, percebermos o mundo mundano sob novos olhares e perspectivas.

Por isso, fica fácil entender porque a ficção fascina tanto crianças, jovens e adultos, ela oferece a oportunidade de utilizar as faculdades mentais para perceber os detalhes ao nosso redor.

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Não deixamos de ler Nárnia pois, em todo seu universo fabuloso, buscamos uma fórmula (o cálice) que dê sentido às nossas vidas, buscamos nossas origens e ressignificamos nosso contexto pessoal através dessas narrativas das quais nos identificamos por meio de personagens cativantes.

Ao ler Nárnia, vemos nosso imaginário ser tomado pela esperança de dias mais calorosos, arrependimentos, reuniões familiares com mesa bem servida e alegria nos corações. Isto faz parte da essência narrativa de Lewis e que me faz continuar dedicado à leitura de ficção – seja pelo prazer que essas leituras oferecem, seja pelas reflexões que geram em mim.

Conclusão

S. Lewis era um literato, aquele com vasto conhecimento literário, que escreveu manuscritos e artigos acadêmicos até chegar naquilo que acredito ser sua paixão: escrever contos, fábulas e histórias imaginativas repletos de aventuras e lições (teologia imaginativa, fábula moral são alguns adjetivos). Sua vida foi rodeada por livros e cabe ressaltar o poder da leitura como fonte de informação e conhecimento.

Lewis segue raciocínio semelhante ao de G.K. Chesterton, além de filósofos e psicólogos como Carl Jung, Bruno Bettelheim, Jean-Paul Sartre e Gilbert Durand que afirmam ser o imaginário uma parte da experiência humana da qual necessitamos para compreensão do mundo pela metáfora de histórias, aparentemente, infantis que lidam com valores éticos e morais na formação do caráter.

Nunca é Natal em Nárnia (1)

Uma coisa posso dizer, com certeza: a ficção oferece reflexões sobre humanidade, espiritualidade e comportamento social que, trabalhadas corretamente, podem ressignificar o que pensamos do mundo. As Crônicas de Nárnia leva-nos à criatividade humana e sua capacidade em estabelecer conceitos narrativos repletos de histórias sobre moral, respeito, resiliência, vitórias e fé, premissa de toda jornada do herói conhecida.

Feliz Natal a todos! E boas jornadas!

São os votos do Ultimato do Bacon!

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Créditos:
Texto: André ‘Brasuka” Roberto – @Comunicafic
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse

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