Ultimato do Bacon

Eu matei Adolf Hitler (2019) – O Ultimato

Em 17 de Nov de 2021 4 minutos de leitura
Eu matei Adolf Hitler PRINCIPAL

Conheça a história sci-fi de Jason em que a profissão “matador de aluguel” é legalizada e um deles é contratado para matar Hitler antes da Segunda Grande Guerra em: Eu matei Adolf Hitler

A banalização da violência é algo discutido em diversas áreas, como a sociologia, a comunicação, a psicologia… Nada mais é do que quando o cidadão está tão exposto ao sofrer do outro que acaba não sendo tocado por aquilo.

O que muda no seu dia a dia saber que mais de 1,5 mil pessoas foram baleadas na região metropolitana do Rio de Janeiro em 2021? E que milhões de pessoas são vítimas de trabalho forçado no Brasil? Sermos menos impactados é uma defesa emocional, sim, mas a um alto custo.

Mais banal ainda fica a violência quando é transformada em espetáculo por programas de TV sensacionalistas. Passa de algo comum para entretenimento. O que aconteceria se, além de rotineiro, um dos exemplos mais extremos e diretos de violência fosse permitido e legalizado: o assassinato?

É isso que ocorre em Eu matei Adolf Hitler (2019), que saiu pela Editora Mino, colorido, em 48 páginas. E não é um mundo de caos que poderíamos imaginar em um filme sci-fi distópico. Pelo contrário. A vida das criaturas antropomórficas de Jason é entediante.

Eu matei Adolf Hitler (2)

Na história, para contratar um assassino de aluguel, é necessário aguardar na fila, como se você fosse ao médico

Qual a trama de Eu matei Adolf Hitler?

De forma semelhante a Ei, espera… (2021), este quadrinho pode ser dividido em duas partes. Eu matei Adolf Hitler apresenta uma sociedade onde a profissão “matador de aluguel” é legalizada. A vida parece não ter valor nenhum – ao menos a do outro –.

Uma longa fila de espera aguarda cidadãos que querem contratar o assassino, já entediado com tantas histórias banais que ouve. É o chefe que não deu um aumento, o vizinho que põe música alta, o filho que vai perder a herança, irmãos e ex-namorados insatisfeitos…

O relacionamento amoroso também não anda bem para o personagem, aparentemente vítima do marasmo cotidiano. Sim, a vida de um matador de aluguel é monótona em Berlim – cidade da história –, justamente porque sua função é banalizada. Aliás, o personagem não tem nome, como os outros protagonistas. É só mais um.

Um senhor, cientista, entra na sala para um contrato único: matar Adolf Hitler antes de estourar a Segunda Guerra Mundial. O protagonista sem nome parte para a máquina do tempo – que precisa ser carregada por 50 anos para funcionar – e volta cerca de 70 anos. Mas Hitler escapa, rouba a engenhoca e vai para o futuro.

O segundo ato é o presente. Hitler some pela cidade, o matador de aluguel, envelhecido, reencontra sua namorada e, juntos, buscam o vilão. Mas é nas relações que estão o foco de Jason. Hitler é um mero MacGuffin*, embora isso não deixe de ser muito simbólico.

Como é a volta de uma pessoa que viveu 70 anos longe? Alguém que no mês passado era um amante e agora dorme sentado e tem dor nas costas? Como lidar com toda essa loucura?

Eu matei Adolf Hitler (3)

Casal protagonista: o cotidiano é sempre objeto de Jason nas HQs

Vale a pena ler?

As HQs do Jason registram algo muito interessante pois, apesar de o desenho cartunesco e antropomórfico, fincam o pé na realidade quando repetem o cotidiano. Coisas que esquecemos que fazemos, mas fazemos a maior parte da vida. Escovar os dentes, olhar no espelho, tomar café na mesma mesa. Tudo isso agravado pela apatia do silêncio.

É onde ele consegue introduzir seus temas de forma tão visceral, apesar de não transparecer em nenhum instante algo assim. Em quadrinhos singelos, leitura rápida, estão presentes temas dos mais caros da humanidade, da convivência, do que é ser humano e o que é ser humano no século XXI.

Você já deve ter ouvido algum porta-voz do poder público falar que as pessoas só não fazem tal coisa porque é proibido e a multa ou punição é alta. Será que a inversão disso, no caso extremo da HQ, vale? Mais pessoas matariam outras se fosse legal? É difícil prever, mas a impressão que nos dá é a de que sim.

Eu matei Adolf Hitler (1)

Uma das cenas mais conhecidas do quadrinho, a viagem para o passado

E aí caímos no problema inicial. Sim, porque a violência se tornou algo banal e o outro não tem mais valor. A grande crítica observável em Eu matei Adolf Hitler é social, ao mesmo tempo que individual. A volta em si mesmo. Por isso a vida do outro se torna tão vazia e desinteressante – ou pior, descartável –.

O quadrinho foi publicado originalmente em 2006, mas esse contexto só se agravou. Nunca vimos tantas fotos e vídeos de si mesmo no mundo – em feeds, reels, vídeos –. Quase sempre sem conteúdo. Parece algo distante desta trama, mas não é…

Eu matei Adolf Hitler causa isso. Reflexões. É difícil ler sem depois parar para pensar por horas. O mais legal é que, como entretenimento, também funciona. Muito. A história é bem amarrada e com ótimas viradas. Os paradoxos temporais estão impecavelmente presentes. Inclusive, o final é, nesse sentido, a cereja do bolo. Mas é óbvio que vou parar por aqui.

*MacGuffin, termo normalmente creditado ao cineasta Alfred Hitchcock, é o objeto de uma narrativa cujo valor é ser o objetivo principal do protagonista. Um filme, por exemplo, pode ter todo seu roteiro criado e apenas no final se escolher o MacGuffin. Imagine O Senhor dos Anéis (2001-2003). Com pequenas adaptações, o anel poderia ser substituído por um brinco, um colar ou outro objeto. O enredo seria o mesmo! O fato de Hitler ser o MacGuffin é o que se torna tão irônico e simbólico em Eu matei Adolf Hitler. A peça “banal”, que poderia ser substituída por qualquer outra, é justamente a que representa o pior da (des)humanidade.

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Avaliação: Excelente!

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Eu matei Adolf Hitler CAPA


Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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