Ultimato do Bacon

Ei, espera… (2021) – O Ultimato

Em 1 de Set de 2021 4 minutos de leitura
Ei, espera... (2021) – O Ultimato

Conheça o trabalho de Jason, um dos quadrinistas indies mais celebrados da Europa em Ei, espera…

Ei, espera… (2021) é uma HQ adulta, melancólica, apesar dos singelos e agradáveis personagens antropomórficos. Fala sobre perda, luto, infância e solidão. O tempo e a amizade também são temas do norueguês Jason, nome artístico de John Arne Sæterøy, premiado autor da obra.

A publicação no Brasil aconteceu neste ano, pela editora Mino, com 68 páginas em preto e branco. Antes, foi a primeira HQ de Jason traduzida para o inglês, pela Fantagraphics no longínquo ano de 2001.

A Time a escolheu como a segunda melhor história em quadrinhos do ano. Ei, espera… é um drama mais ao estilo europeu. Contemplativo, reflexivo e sem grandes viradas – a não ser uma específica entre capítulos –.

Jason não deixa de nos mostrar muita criatividade e estilo próprio. Nas linhas a seguir, em prol de breves reflexões acerca da HQ, me permitirei passar por alguns spoilers. Então, só siga se considerar esta opção.

Índice

Qual o enredo de Ei, espera…

A obra têm dois capítulos. O primeiro celebra a infância e as primeiras amizades. Mostra a vida de Jon e seu amigo Bjorn em uma pacata cidade industrial. Os dois vão para a escola, aprontam, tocam campainhas e saem correndo, enfrentam as tarefas e primeiras responsabilidades dadas pelas mães, falam sobre meninas e criam um fã-clube do Batman.

Para dificultar, impõem um teste de entrada para os membros. Em frente a um barranco, Jon balança segurando no galho de uma árvore. Passa por cima do precipício e volta para a terra firme. Um desafio mortal. E é nele que, ao fim da primeira parte da história, Bjorn morre.

Ei, espera... (2021) – O Ultimato

Jon passa no teste para entrar no fã-clube do Batman

Para tirar Jon do quarto antes do enterro, o pai do garoto o traz para a maturidade: “Sempre vai haver momentos difíceis na sua vida. Não pode se esconder sempre. É isso o que significa crescer.”

É interessante destacar como Jason trabalha com simbolismos. Saindo do cemitério, Jon espirra e, a partir daí, já é desenhado como alguém de meia idade. Nos faz refletir como a vida passa rápido e, sobretudo, como o luto é um dos primeiros encontros, ainda na infância, com a vida adulta.

É uma dica de que a própria vida é finita. E vamos mais longe, se Bjorn representava para Jon tudo de bom que ele guardava da infância, com sua morte, então, a infância também se foi. E abruptamente.

No segundo capítulo de Ei, espera…, o protagonista deixa seus ideais da infância – viajar pelo mundo, morar no exterior, ser desenhista – para uma mecânica e melancólica vida em sua cidade natal. Em contraste com a primeira parte, vemos um Jon apático, quadros repetitivos de extremo marasmo e a falta de vínculos. Nem seu amor de infância, Ingrid, permanece na vida adulta.

O trabalho de Jon é em uma fábrica que nos lembra do filme Tempos Modernos (1936), de Charlie Chaplin. A solidão se dá até a prematura morte, aparentemente de coma alcoólico. Aqui, vale nos apropriarmos de algumas concepções da psicanálise.

Ei, espera... (2021) – O Ultimato

A cena mais repetida e repetitiva: o ofício de Jon

Luto e melancolia

Para Freud, o luto é um processo doloroso, mas saudável. Um período em que, após a perda, percebe-se que o objeto amado não existe mais. Toda aquela ligação afetiva precisa ser cortada. Isso não é rápido nem fácil. O devotamento ao luto é também a dificuldade em largar esse amor.

Com o tempo, isso acontece. O trabalho do luto é concluído para que outros interesses tenham espaço na vida da pessoa. Ou seja, é mais do que necessário. No caso de Jon, a impressão que nos dá é a de que ele não sai do luto, em vista de que não se dedica a nada de forma desejosa.

É bem verdade que Jon não se pune verbalmente. Apresenta-se sempre como alguém bom. Diz para um amigo ser melhor do que o chefe da fábrica que o critica. Ao fim, fala para a morte: “…se eu estivesse sendo punido, faria sentido pra mim se eu fosse uma pessoa ruim, mas não sou.”

Oras, quem o puniu durante a vida inteira? Quem não fez faculdade? Quem não foi para os EUA? Quem não se tornou quadrinista? Podemos concluir que Jon estava se autopunindo pela culpa que sentia pela morte do amigo. Afinal, quem deu a ideia do fatídico teste foi ele.

Isso nos faz lembrar também da melancolia que, para Freud, é algo mais profundo que o luto. Mais do que sobre a morte de alguém, é sobre a morte de um ideal. Com a morte de Bjorn, não morreu também a infância e todo aquele futuro aventureiro que ambos mirabolavam?

Ei, espera... (2021) – O Ultimato

Jon vê a morte algumas vezes durante a vida

Jon nunca deu a volta por cima. Se a frase “Ei, espera…” é dita ao amigo, de forma quase que instintiva, antes do salto, é também o que Jon faz. Esperar até a hora de reencontrar a morte. E aqui uma dica: repare como a morte sempre aparece em momentos chave, poética e simbolicamente, desenhada como um dos animais antropomórficos em forma de zumbi.

É claro, essa é apenas uma das diversas interpretações que se pode tirar da HQ. Mas fez algum sentido quando li. Luto e Melancolia (1917) de Freud é uma ótima referência nesse caminho.

Vale a pena ler?

Ei, espera… é uma experiência diferente, sobretudo para quem está acostumado com quadrinhos de super-heróis. Apesar do drama e da apatia, ou talvez justamente por isso, nos toca profundamente. Fala sobre o poder da amizade e sobre a perda.

Tudo isso é feito com poucos diálogos, de forma minimalista. Incrivelmente, nos faz querer destrinchar todas as outras obras do autor. Afora as reflexões que coloquei acima, não consigo falar muito mais sobre o quadrinho. Então, deixo a resposta da pergunta acima para você…

Avaliação: Excelente!

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Ei, espera... (2021) – O Ultimato

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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