Ultimato do Bacon

Elvis (2022) – O Ultimato

Em 12 de Jul de 2022 7 minutos de leitura
Longa dirigido por Baz Luhrmann estreia na quinta-feira, 14 de julho, nos cinemas

Índice

Elvis – introdução

Elvis é o rei do rock’n’roll. Você pode não gostar ou talvez (ainda) não conhecer, mas o legado do homem das lantejoulas e jumpsuits fulgurantes vai além dos imitadores que circulam por Sunset ou Santa Mônica Boulevard em Los Angeles ou, ainda de maneira mais enfática, em Las Vegas.

Com uma agitada vida e meteórica carreira, já foi retratado em diversos filmes e séries, mas nunca de maneira tão oscarizável e com um recorte tão inusitado: pelo ponto de vista de seu enigmático e inacessível empresário, o Coronel Tom Parker.

Elvis, o longa de Baz Luhrmann, tenta jogar alguma luz na relação de ambos, suaviza o lado violento, adicto e imprevisível de Elvis, faz um recorte menos focado em sua família e carrega no que o diretor sabe fazer de melhor que é utilizar a trilha sonora como elemento narrativo…

Será que essa proposta sustenta um biopic do rei?

Elvis Austin Butler

Austin Butler como Elvis: a diferença entre atuação perfeita e o exagero dos imitadores.

Elvis – generalidades

Logo na abertura de Elvis, algo me incomoda muito. O Coronel Tom Parker se apresenta, em inglês, como snowman – um boneco de neve, na tradução; e também, entre diversos outros significados das gírias, um trapaceiro sedutor, porém frio e desalmado – enquanto a legenda diz “o ilusionista”.

Eu geralmente não falo de traduções, legendagens e dublagens em meus textos… mas nesse caso acho imprescindível apontar a minha absurda insatisfação com a escolha feita, principalmente quando a mesma tradução opta por manter o termo showman – o apresentador, o mestre de cerimônias, o artista – por qualquer motivo que seja, quando Parker fala de Elvis.

No mínimo, uma escolha absurdamente incoerente. Em uma questão mais profunda, elimina do argumento do filme algo artístico e intrínseco ao personagem – baseado em uma pessoa real – que é a identificação de Parker com a figura do boneco de neve, presente em uma vistosa bandeira atrás da mesa de seu escritório e repetidas vezes evocada ao longo do filme – do especial de Natal que o empresário insiste em gravar às manoplas de sua bengala, passando pela alusão clara a cocaína (que não é mostrada em momento algum do filme, mas que permeou a vida dos personagens reais).

Um mero incomodo para quem entende inglês, uma perda real para quem não é fluente com a língua e depende da tradução para compreender o longa.

Outra questão interessante a se abordar logo de cara é a inevitável comparação com os recentes Bohemian Rhapsody, acerca da história do Queen e Freddie Mercury e Rocketman, que traz a vida de Elton John.

Claro, biopics estão aí desde sempre, mesmo os focados em figuras do mundo da música, incluindo alguns icônicos como Ray, dirigido por Taylor Hackford, baseado na vida de Ray Charles. Mas depois da dupla citada, a expectativa para um filme do Elvis, dirigido por Baz Romeu + Julieta e Moulin Rouge sem falar em Grande Gatsby Luhrmann se tornou extremamente alta.

Elvis Coronel Tom Parker Tom Hanks

Tom Hanks como Coronel Tom Parker em Elvis: às vezes o pacto com o demônio não ocorre em uma encruzilhada…

Elvis – trama, direção e elenco

Em Elvis acompanhamos as lembranças de um abalado, frágil e moribundo Coronel Tom Parker, que acaba de ser internado, em 1997, para o que viria a ser seu falecimento. Em seus devaneios, sonhos e pesadelos, Parker se sente incriminado pela morte de Elvis Presley em 1977 e decide narrar a “verdade” aos espectadores.

Dali acompanhamos um narrador onisciente, que nos apresenta pedaços da vida de Elvis que o próprio Parker nunca presenciou, até o fatídico encontro entre ambos. A narrativa apresenta, em sua essência, o ponto de vista do Coronel, abrindo poucas exceções.

Por esse motivo, alguns episódios como a gravação do primeiro disco pela Sun Records ou mesmo as etapas iniciais da carreira de Elvis não estão no longa, assim como momentos mais íntimos entre Elvis e Priscilla – para este lado da história, indico aos fãs a leitura do esgotado, mas fácil de encontrar em sebos Elvis e Eu escrito pela própria Priscilla nos anos 80 – e, ainda, o lado mais familiar e festivo do rei do rock.

Estrutural e narrativamente, um longa que faz a lição de casa e não ousa muito. Visualmente, insere algumas brincadeiras e adereços que dão um certo charme, mas que também não chamam muito a atenção.

Na direção, Luhrmann mostra que os anos de experiência lhe fizeram bem. Mais contido e elegante, os arroubos visuais de longas como Romeu + Julieta agora servem ao roteiro e à história de maneira mais direta, numa linha que se assemelha à classe e elegância já mostrada em Gatbsy.

Paralelos visuais são colocados desde o começo da trama, quando o jovem Elvis se vê dividido entre o bar e a igreja, entre o profano e o sagrado, com a música conectando os dois mundos; e depois repetido quando o músico apresenta, no especial de 68, That’s All Right, gravado originalmente quando ele tinha somente 19 anos.

Na atuação, a escolha foi impecável. Se Tom Hanks esbanja técnica representando um dos poucos “vilões” de sua carreira, Austin Butler não fica atrás, fazendo a lição de casa nos maneirismos de Elvis, tanto físicos quanto vocais, num limite perfeito: mais que isso e a atuação pareceria uma imitação grosseira; menos, pareceria algo forçado e não natural.

Elvis – quadrinhos e super-heróis

Um detalhe curioso que talvez os grandes fãs de Elvis saibam, mas que me era desconhecido, era o fascínio do jovem por quadrinhos de super-heróis – mais precisamente, pelo Capitão Marvel Jr. (hoje, por uma questão jurídica, rebatizado como Shazam Jr.) e seu lar místico nas HQs, a Pedra da Eternidade.

Luhrmann trabalha com este elemento de maneira belíssima, colocando o jovem Elvis em uma fantasia improvisada – o famoso “cospobre” – do personagem; ou ainda, mostrando ele lendo a HQ e por fim, mencionando a própria Pedra da Eternidade que, no contexto do filme, adquire um contorno profético e metafórico da fama que o cantor obterá.

Algo que, para os fãs de quadrinhos, não passa como detalhe corriqueiro e sim como um maravihoso easter egg… Shazam! ou TCB in a Flash!

Elvis Shazam Jr

Elvis (Chaydon Jay) em seu “cospobre” de Capitão Marvel (Shazam) Jr. na infância.

Elvis jumpsuit

O verdadeiro Elvis apresenta seu jumpsuit azul: sonho realizado.

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Taking Care of Business in a flash ou simplesmente TCB, logotipo e lema do músico: shazam?

Elvis – falando sobre o filme, o rei, o circo, o rock e o blues

Recentemente, lançamos por aqui uma lista com HQs figurando Robert Johnson, também conhecido como o rei dos cantores de blues do Delta. Entre as HQs da lista está Blues de Robert Crumb, antologia em que o autor nos apresenta, especialmente em seus textos de prefácio e posfácio, um pouco do panorama do blues do Delta dos anos 20 e início dos anos 30.

Essencialmente diferente do blues de Chicago, essa música continha, segundo Crumb e outros especialistas, algo de diferente, algo de vigoroso e profundamente melancólico, saído diretamente dos campos de algodão e rechaçado até mesmo por uma parcela dos negros – a parcela que frequentava a igreja – pois era essencialmente profano e livre.

No entanto, era o tipo de som que agradava aos ouvintes e passou a ser buscado por algumas pequenas gravadoras e prensados nos 78 rotações da época.

O longa de Baz Luhrmann faz justiça a essa parte da história da música e seu clima, revelando a realidade da infância de Elvis – um jovem branco pobre, que residia na vizinhança negra de Memphis, no Tennessee e que viveu os extertores desse blues dos anos 20 e 30 em seu ambiente real.

Quando criança eu costumava ouvir uma anedota, de algum parente mais velho que contava a respeito de uma cidade tão pequena que havia somente um prostíbulo de um lado, uma igreja do outro e uma linha de trem, no meio. Era preciso escolher um lado, pois o trem atropelava quem ficasse no meio…

Essa historinha veio em minha mente instantaneamente em uma das cenas do filme: Elvis espia um bluesman destilando sua música no bar, enquanto os clientes dançam juntos, sensualmente; para em seguida se encaminhar ao culto gospel, apenas alguns metros de distância do bar.

Esse aspecto da formação de Elvis, essa influência negra em sua infância e juventude, sempre foi determinante para sua música e seu sucesso; no entanto, o filme evidencia isso de uma forma nunca antes realizada, frisando não somente a relevância disso em sua infância como também a permanência disso em sua vida, tanto quanto fosse possível sem que houvesse retaliações.

O longa mostra Elvis como amigo pessoal de B.B.King e outros grandes nomes negros da época como Fats Domino, Mahalia Jackson e até mesmo o Doutor (Martin Luther) King, bem como assíduo frequentador da cena musical da Beale Street.

Elvis e BB King

Elvis e B.B.King (Kelvin Harrison Jr.) “na noite” da Beale Street.

E deixa claro, tanto direta como subjetivamente, que para além de sua grande qualidade musical, um dos grandes feitos do jovem Elvis era ser branco que tocava e cantava como um negro.

Em uma época em que o racismo nos Estados Unidos era escancarado e possuía ferramentas legais para manter a segregação, embora a música “negra”, o blues, o rock e outros estilos, fossem de grande aceitação popular, o mesmo não ocorria com seus e suas intérpretes e autores.

E o Coronel Tom Parker enxergou, neste conjunto de fatores “promissores” de Elvis, uma mina de ouro. Como bem lembrado por Isaque Sagara durante a live de lançamento de sua HQ Amor em 12 compassos, essa visão racista permeou até mesmo grandes nomes como John Lennon que certa vez declarou que, antes de Elvis, não havia nada.

Não havia nada “branco” que cantasse e tocasse dessa forma. Vale lembrar que o primeiro sucesso de Elvis, That’s All Right é uma composição de Arthur Crudup. Negro. Good Rockin’ Tonight, de Wynonie Harris. Negro também. Milkcow Blues Boogie, de Kokomo Arnold. Negro citado na HQ Blues de Crumb…

Em hipótese alguma este texto visa diminuir o mérito e o talento do rei do rock. Tento aqui somente evidenciar algo presente no longa de forma justíssima, lisonjeira e elegante que é o reconhecimento das influências de Elvis; sua maneira de evidenciar os talentos negros – vide a passagem com Little Richard, mais tarde no filme; sua forma de protestar contra isso, dentro de diversas amarras que o sucesso lhe impunha; e a extensão do preconceito naquele tempo.

Elvis – conclusão

A crítica desse filme certamente tomou um rumo um pouco diferente do costumeiro. Afinal, estamos falando de Elvis. Ainda que seja um filme baseado em fatos reais, Luhrmann traz para a figura de seu vilão as origens circenses do Coronel Parker, com uma forte pegada do “circo das aberrações” de Beco do Pesadelo, por exemplo.

Uso esse exemplo pra dizer que, como todo biopic, Elvis possui uma carga dramático-narrativa carregada, feita para emocionar, empolgar, carregar o filme… para além dos verdadeiros fatos, para além do incômodo com anacronismos e lapsos. A famosa licença poética que faz de um longa metragem algo eterno na mente de seus espectadores… assim como, para além da pessoa real por trás do artista, é o rei do rock’n’roll, Elvis Presley.

Avaliação: Excelente!


Créditos:
Texto: Alexandre Baptista
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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