Ultimato do Bacon

Conheça Henri Désiré Landru de Chabouté

Em 17 de Fev de 2021 5 minutos de leitura
Landru

Começamos a trama no ano de 1921. Passaram-se três anos do maior conflito que o planeta vira e uma nova batalha era travada: a judicial. No banco dos réus, Henri Désiré Landru, homem acusado de vários assassinatos, todos praticados contra mulheres.

A narrativa tem uma proximidade gráfica muito similar à de Will Eisner e há uma beleza oculta em cada uma das cenas que mostram um julgamento conduzido por um promotor que pede a morte de Henri, baseado em provas irrefutáveis. Durante essas cenas, Chabouté mostra com grande talento as faces das pessoas que oscilam entre chateadas e surpresas. Uma gradual mudança em suas faces acontece conforme os crimes são citados.

As cenas mudam para um lugar da Grande Guerra, no ano de 1915. As trincheiras são divididas entre homens e ratos, lama e o aborrecimento de não saber o que está por vir. Nesta trincheira especificamente, um homem escreve uma carta para sua amada. Ela a recebe apenas 15 dias depois.

Um dos homens que estava na trincheira sobrevive, ainda que mutilado no rosto. Este homem retorna para sua casa, mas o que descobre é algo estranho. Heléne, aparentemente sua mulher, está sendo seduzida por Henri.

Landru.

Ao se deparar com o assassino, o homem mutilado ameaça-o com uma passagem só de ida à Guiana (mesmo local onde foi preso Papillon). Esse sobrevivente da guerra põe Henri em xeque ao lhe propor que seduza mulheres para que delas tome dinheiro.

Não há opção para o trambiqueiro, pois a vida de seus filhos está na mão do sinistro homem enfaixado. O detalhe está no fato de que há muitas mulheres carentes, viúvas de soldados que partiram para a guerra e lá pereceram.

O que se segue é uma verdadeira caçada às mulheres que tinham algum dinheiro e estavam solitárias. Henri não selecionava pela aparência; selecionava através do critério posses financeiras. Quanto mais havia para ser roubado, maior era sua cobiça e dedicação para seduzir.

O detalhe fica por conta da aparência de Landru, um homem comum, calvo e com uma longa barba que, entretanto, possuía uma lábia capaz de encantar suas vítimas.

Conheça Henri Désiré Landru de Chabouté

A primeira coisa que se nota na trama de Chabouté é a “afirmação” de um cúmplice no sequestro e morte das mulheres. Ao longo da história, o que parece ser apenas um conluio entre golpistas ganha aspecto de uma conspiração macabra.

Henri se mostra uma vítima que tem parte da culpa, sem que isso o transforme no monstro que a História mostrou. Landru era, segundo Chabouté, um homem atormentado pela culpa de atos que ele jamais quis praticar. Suas culpas incluíam desde a sedução de mulheres solitárias até a prática de estelionato, mas jamais quis cometer assassinatos. Mesmo assim fica o questionamento: isso diminui sua participação e culpa?

Landru

Aos poucos o leitor percebe uma rede que cerca Henri sob todos os aspectos. Seria esse o motivo da passividade do “serial killer” diante dos tribunais?

Uma “verdade” jamais contada ou mostrada. Essa é a melhor forma de resumir a obra de Chabouté chamada Henri Désiré Landru, lançada pela editora Pipoca & Nanquim.

Minhas impressões sobre Henri Désiré Landru de Chabouté

Honestamente, é quase impossível não ser fã de Christophe Chabouté. Seu traço é impecável, o uso de luz e sombras é uma verdadeira aula e suas tramas são invariavelmente fantásticas.

Esta nova obra, a quarta do autor lançada pela editora no Brasil, é muito boa, porém levanta especulações que incomodam àqueles que se baseiam na História já estabelecida. Apesar de ser uma obra ficcional, Chabouté se vale de um indivíduo real, cujas ações à época transformaram a França em um local dominado pelo medo, sobretudo no que dizia respeito às mulheres, vítimas preferenciais de Landru que contou, ainda, com a morte de um garoto entre suas 12 vítimas conhecidas.

Landru

Mas, caso você não se importe com essa desvirtuação histórica, a trama de Henri é muito interessante, principalmente por conta da reviravolta e da possibilidade de uma conspiração para incriminar apenas um falsário e sedutor.

O acabamento do livro é impecável e segue o padrão das obras do Pipoca & Nanquim. O tamanho da graphic segue o mesmo de outra já publicada do autor, Moby Dick, obviamente baseada na obra homônima de Herman Melville.

O valor sugerido da obra não é um dos mais atraentes (aproximadamente 80 reais), porém é válido lembrar que a editora sempre oferece descontos na pré-venda que, neste caso, possibilitaram a compra da edição por R$ 55,90, mas sempre há boas promoções, basta ter paciência e ficar atento.

Comparativamente com outras editoras, esta HQ de 148 páginas e toda em P&B pode parecer muito cara, sobretudo quando encontramos edições da Mythos e da Darkside que contam com quase 4 vezes o número de páginas. Entretanto, destaco, as comparações não podem ser feitas apenas por páginas, já que Chabouté é um material inédito no país, acessível apenas por scans (grátis e ilegais, e ainda assim com qualidade de tradução e imagem duvidosas) ou importação (publicações caras, onde é necessário o domínio de uma língua estrangeira).

Outras edições mais comuns e que posteriormente ganham versões em capa dura, chegam às bancas por preços nem sempre tão acessíveis. As Graphics MSP em capa dura custam quase 45 reais, o que confirma que os 56 reais iniciais cobrados pela editora – à época do lançamento – estão dentro da realidade e são aceitáveis, mas não recomendo a aquisição pelos 80 reais cobrados na data do lançamento.

Eu já disponho da graphic Um Pedaço de Madeira e Aço (e também a resenhei, basta clicar aqui), além de outras edições da editora. Minha experiência serve para afirmar que adquirir na pré-venda é uma ótima escolha que, além de baratear o produto, serve para incentivar a própria editora a trazer mais material inédito dele e de outros autores.

Quanto à trama em si, cabe ressaltar que por se tratar de uma história sobre o “mais famoso serial killer da França”, o conteúdo pendeu mais para uma trama de suspense do que para algo no estilo Do Inferno ou O Silêncio dos Inocentes. Na verdade, a trama possui um cunho político inegável que contesta não apenas os sistemas judiciário e político, mas a própria polícia francesa da época, mostrada como uma força capaz de matar para manter um segredo.

Landru

Henri Désiré Landru é uma graphic novel cujo conteúdo gráfico é de incontestável qualidade, uma verdadeira lição de desenho para iniciantes e/ou ilustradores já consagrados, além de se valer de uma narrativa interessantíssima (excetuando-se alguns quadros que se repetem e tornam a trama cansativa em certas passagens).

Ao final da obra há um texto explicativo sobre a vida e “obra” de Landru que servirá para situar historicamente o assassino em série e deixar o leitor realmente a par da verdadeira história do matador.

Confira outras textos e reviews de Franz Lima em seu blog Apogeu do Abismo clicando aqui!

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Créditos:
Texto: Franz Lima (Apogeu do Abismo)
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse

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