Vingança a Sangue Frio (Cold Pursuit)
Ano: 2019 Distribuição: Paris Filmes
Estreia: 14 de Março de 2019 (Brasil) Direção: Hans Petter Moland
Roteiro: Frank Baldwin (baseado no filme escrito Kim Fupz Aakeson)
Duração: 119 Minutos  

Elenco: Liam Neeson, Laura Dern, Emmy Rossum, Tom Bateman, William Forsythe

Sinopse: “Nels, um homem de família tranquilo, trabalhador e motorista de snowplow (limpa-neves), é a alma de uma deslumbrante cidade turística nas Montanhas Rochosas, porque é ele quem mantém limpas as estradas. Ele e sua esposa moram em uma confortável cabana longe dos turistas, e a cidade acaba de lhe conceder o prêmio de "Cidadão do Ano". Mas Nels tem que deixar sua tranquila vida nas montanhas quando seu filho é morto por um poderoso traficante. Como um homem que não tem nada a perder, ele se deixa levar por um impulso de vingança. Este herói improvável usa suas habilidades de caça e deixa de ser um homem comum para ser um assassino qualificado enquanto ele se esforça para desmantelar o cartel. As ações de Nels provocam uma guerra territorial entre um gangster conhecido como Viking e um chefe de uma gangue nativa americana. A justiça virá em um último confronto espetacular onde (quase) ninguém ficará ileso.”

 

 

Alexandre Baptista

Sem uma verdadeira identidade, Vingança a Sangue Frio é prolixo, sem ritmo e completamente esquecível

Com algumas boas sequências, longa iria estrear nesta quinta, 14 de fevereiro e teve sua estreia adiada para 14 de março, falha ao se levar a sério demais e tentar ser mais do que deveria

por Alexandre Baptista

 

Muita gente não entende o fascínio que algumas pessoas têm por filmes de ação, uma vez que tais filmes basicamente, tratam-se de variações de um mesmo roteiro em que o personagem principal, um pacato cidadão de algum lugar / um veterano de guerra / um ex assassino cuja família nada desconfia de seu passado, frente a morte / sequestro de alguém querido por ele, jura vingança aos responsáveis, fazendo justiça com as próprias mãos, uma vez que a polícia é corrupta / não liga / não consegue resolver o caso.

Sendo um grande consumidor de filmes de ação, em especial, mas não exclusivamente os dos anos 80, devo dizer que esse apreço por filmes cheios de explosões e furos de roteiro se assemelha à inexorável paixão dos estadunidenses pelo beisebol, futebol americano e basquete; dos brasileiros pelo futebol, novela e carnaval. Acredito por aqui que seja para ter um momento completamente descompromissado de entretenimento em que os esforços, especialmente os intelectuais, sejam levados a quase zero, causando uma espécie de letargia relaxante por um par de horas ou menos, a fim de renovar e reabastecer o repertório de inutilidades do cérebro. Pelo menos para mim, é por isso.

E seja por esse motivo ou não, fato é que existem milhares de pessoas que priorizam esse gênero nos cinemas, visto o sucesso de franquias como John Wick; Velozes e Furiosos; Mercenários; a grande maioria dos filmes de Dwayne “The Rock” Johnson e muitos outros.

Vingança a Sangue Frio deveria ser mais um desses filmes, com mortes icônicas, frases de efeito, atuações no limite da canastra, personagens exagerados e tão planos como uma folha de papel. Em seus 20 minutos iniciais, o longa até consegue esse feito, resolvendo a motivação de Nelson 'Nels' Coxman (Liam Neeson) de maneira ágil e sem grandes discursos. Aliás, Coxman é um nome que possui um trocadilho tosco e perfeito para esse tipo de filme… algo como “Nelson 'Nérso' dos Pintos”.

Na história, Nels é um respeitado limpa-estrada da cidade de Kehoe no Michigan que se encontra em uma sangrenta busca por vingança após o assassinato de seu filho pelos traficantes de drogas locais.

Até mais ou menos a terceira morte, o filme anda bem. Mas aí, o roteiro de Frank Baldwin (baseado no filme escrito Kim Fupz Aakeson) e a direção de Hans Peter Molland, começam a se perder. As mortes começam a ser sugeridas, banais – vemos Liam Neeson se aproximar do alvo e depois vemos ele “desovando” o cadáver. A parte que, para a maioria dos fãs do gênero é a essencial, fica oclusa. Sem mortes criativas, gráficas ou até mesmo, engraçadas, o filme passa a investir na trama: as relações entre os traficantes rivais; uma disputa por território; as investigações de uma dupla de policiais locais; e uma série de sub tramas que servem para tapar furos do roteiro, mas pouco agregam para a ação ou o divertimento em si.

O elenco, no entanto, se salva da crítica: percebe-se no filme que Raoul Trujillo, que interpreta o traficante indígena Thorpe, Julia Jones (Aya), Tom Bateman (o chefão do tráfico em Detroit, Viking), o próprio Neeson e muitos outros atores e atrizes ali, fazem o possível para corresponder às mudanças de direção no tom do filme: entregam seriedade e dramaticidade em um momento; no momento seguinte, o exagero que beira o pastelão.

Essa incongruência pode ser resumida no trailer do filme: nos 28 primeiros segundos, o filme parece ser um drama sério, bem filmado e com uma bela fotografia; nos 20 segundos posteriores, temos a sensação de estar vendo um thriller investigativo; dos 45 segundos pra frente, um filme de ação clássico. O longa em si ainda tangencia e visita a comédia gore, mas não permanece por ali muito tempo. Oscila entre gêneros, oscila em seu ritmo. Mas não se engane: todas, absolutamente todas as boas cenas do filme, estão no trailer.

O que chega a dar raiva, no entanto, é a falsa condução que a produção exerce com o público. Desde o título original em inglês, Cold Pursuit (perseguição fria), que remete a algo revivido tempos depois de ter sido encerrado ou ainda, remete à simples perseguição automotiva; passando pelo pôster, que mostra um carro empalado em uma árvore; até alguns temas sugeridos pelos personagens, nada se concretiza no filme: a única perseguição utilizando o limpa-estrada termina com Neeson descendo do veículo e abordando o vilão; o carro empalado só aparece no pôster e, a cena que corresponderia a isso é bem diferente e menos vibrante; e a fala de Neeson que sugere uma possível vida violenta pregressa, acaba em nada, com uma pequena revelação que não suscita sequer um levantar de sobrancelhas. E, reforçando, todas essas cenas estão no trailer.

 

Fake news: não há perseguição pela estrada como sugere a placa "drive safely" do poster e o carro, empalado pela árvore, jamais sai do chão. A cena mais parecida com esta que de fato está no longa, aparece no trailer.

 

O limpa-estradas de Nels Coxman: sua simples presença sugere tantas boas cenas de perseguição e mortes criativas que infelizmente não ocorrem. Na maior parte do filme, ele só é utilizado para, de fato, limpar a neve da estrada.


 

Para não dizer que o trailer entrega absolutamente tudo do filme, posso assegurar que a piada dos codinomes ali mostrada, está incompleta, havendo um “gancho” – bem ao estilo do Universo Marvel – do porque o personagem se chama Braço-Direito (Wingman).

A trilha sonora tampouco ajuda o espectador a se situar: ela é estranha e em alguns momentos, chega a dar impressão de que o longa se passa na Rússia, em algum lugar esquecido pela Transiberiana.

Para não ser alvo de uma Vingança a Sangue Frio, não posso ser injusto com o longa: ele apresenta bons enquadramentos e uma bela fotografia e tem pelo menos uma morte emblemática – a última mostrada em tela. Infelizmente, tarde demais para significar qualquer coisa e parecida demais com uma das muitas presentes em Deadpool 2 (2018), onde a tal morte está melhor colocada e aproveitada.

O arquiteto Mies van der Rohe, valendo-se da frase de Robert Browning – “Menos é mais” – aplicou em sua arquitetura o conceito do minimalismo, buscando reduzi-la ao essencial necessário. Molland, ao criar uma nova versão de seu próprio filme de 2014, O Cidadão do Ano (In Order of Disappearance, com Stellan Skarsgård no papel principal), tentou inclusive incluir cenas abstratas e subjetivas naquele que deveria ter sido um “Busca Implacável na Neve”.  Ao contrário do arquiteto, fez muito, quando deveria ter feito menos. Muito menos.

 

 

Avaliação: Regular

 

 

Trailer:

 
 
 

Acessem nossas redes sociais e nosso link de compras da amazon

Whatsapp

Instagram

Facebook

Amazon

 

 

 

Comentários