Vice
Ano: 2018 Distribuição: Imagem Filmes
Estreia: 31 de Janeiro (Brasil) Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay
Duração: 132 Minutos   Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Amy Adams, Sam Rockwell, Jesse Plemons, Naomi Watts, Alfred Molina

Sinopse: Vice acompanha a ascensão de Dick Cheney (Christian Bale), ao se tornar o homem mais poderoso do mundo. Vice-presidente de George W. Bush (Sam Rockwell), ele remodelou os Estados Unidos e o mundo, gerando mudanças que permanecem até os dias de hoje.

 

 

Alexandre Baptista

Disfarçado de versão cômica e baseada em fatos reais de House of Cards, VICE, um dos melhores longas de 2018, corajosamente ataca os vespeiros do poder mundial

Filme escrito e dirigido por Adam McKay estreia em 31 de janeiro no Brasil e é um dos poucos a sequer mencionar o poder dos irmãos Koch, verdadeiros “proprietários” do mundo

por Alexandre Baptista

 

Para quem está familiarizado com o trabalho de Stephen Colbert à frente do The Colbert Report, que foi ao ar de 2005 a 2015 pelo Comedy Central, em que o comediante apresentava notícias e comentários em uma paródia de notórios jornalistas conservadores como Sean Hannity e Bill O’Reilly da Fox News, basta dizer que Vice, longa escrito e dirigido por Adam McKay que estreia nos cinemas nacionais em 31 de janeiro, é uma versão semi-verídica de House of Cards ao estilo do jornalístico satírico acima citado.

A sátira do The Colbert Report era tão bem-feita que os republicanos chegaram a toma-la por verdadeira, levando-os a convidar o “jornalista” ao épico jantar da White House Correspondents' Association em 2006, em que Colbert discursou e atacou o governo corrente durante 7 minutos, frente a frente com o próprio George W. Bush.

Vice segue essa cartilha à risca, tecendo um comentário mordaz e extremamente sutil, com viés liberal e democrata na entrelinha de todo o longa e confundindo o expectador menos atento em diversos momentos. Mas não se engane, o texto de abertura do longa já deixa claro:

"A seguinte história é verdadeira. Ou tão verdadeira quanto possível, uma vez que Dick Cheney é conhecido como um dos líderes mais sorrateiros da história. Mas nós fizemos a p*[email protected] do nosso melhor.”.

Narrada por Kurt (Jesse Plemons), um personagem arquetípico que representa o americano médio – um pai de família, um trabalhador, um soldado, um eleitor que é “atropelado” [pelo sistema?] – , a trama apresenta a trajetória de Dick Cheney (Christian Bale) desde novembro de 1962 quando, pego dirigindo embriagado e confrontado pela namorada, Lynne (Amy Adams), se vê forçado a mudar os rumos de sua vida. Atuando então na política estadunidense a partir de 1969, época em que era estagiário de Donald Rumsfeld (Steve Carell) durante o mandato de Richard Nixon, Cheney passa a aprender os mecanismos e os bastidores do poder, traçando um plano a longo prazo de permanência e influência por ali.

Colocado dessa forma, o longa parece ser nada mais que uma cinebiografia. Mas não se engane: a linguagem do filme é extremamente contemporânea, com um ritmo tão bem distribuído que as mais de duas horas passam de forma imperceptível; a narração de Kurt e as participações especiais de Naomi Watts e Alfred Molina abusam de elementos metalinguísticos, metáforas, simbolismos e quebra da quarta parede, deixando uma quantidade imensa de elementos meramente sugeridos – como o envolvimento e patrocínio dos Koch, família de empresários que, sem grande alarde, dominam grande parte do capital e influência política mundial, citados prudentemente de forma sucinta por duas vezes no longa; a estética limiar, mimetizando a utilizada nos períodos representados mas pendendo no limite do exagero; entre outros exemplos. Notem particularmente, a cena entre Cheney e sua esposa Lynne na cama, em que o narrador, num esforço imaginativo acerca de como se deu determinada decisão entre ambos, nos transmite um diálogo shakespeariano, em pentâmero iâmbico, como sendo uma alternativa possível. Uma cena cômica que, no entanto, sugere mais que riso – tal decisão teria sido digna de conluios e conspirações retratadas pelo Bardo, tamanha frieza e planejamento envolve o jogo político da mais poderosa nação do mundo.

Além das evidentes qualidades de roteiro, edição e direção, Vice apresenta um elenco perfeito, irretocável e impressionante: o cartunesco e exagerado George W. Bush de Sam Rockwell; o inconveniente Donald Rumsfeld de Steve Carell; a controladora Lynne Cheney de Amy Adams e até mesmo os coadjuvantes e participações especiais entregam performances espetaculares e à altura da sensacional figura de Christian Bale como Cheney, que ganhou (muito) peso para representar o personagem e estudou seus maneirismos à perfeição.

A maquiagem e figurino também são dignos de nota, aproximando fisicamente atores e atrizes que pouco tem em comum com suas contrapartes, de modo impressionante e convincente, especialmente nos casos de Sam Rockwell e Christian Bale.

Bale (esq.) e Rockwell em Vice, como Cheney e Bush respectivamente…

…e os verdadeiros George W. Bush (esq.) e Dick Cheney.
[crédito: Eric Draper, Courtesia da George W. Bush Presidential Library]

 

A trilha sonora é discreta e bem colocada, sem grandes detalhes positivos ou negativos.

Vice teve seis indicações ao Globo de Ouro, tendo ganhado o de Melhor Ator em um Musical ou Comédia para Christian Bale; está indicado em oito categorias no Oscar – Melhor Filme, Melhor Diretor, Roteiro Original, Ator (Bale), Ator Coadjuvante (Rockwell), Atriz Coadjuvante (Adams), Edição e Maquiagem.

Apesar disso, o longa tem divertidamente dividido a crítica internacional, em função da forte polarização política atual, sendo duramente criticado por veículos e críticos alinhados ao pensamento republicano e idolatrado por veículos mais liberais. Afinal, McKay não “passa vontade”, aponta dedos em relação a muitas decisões tomadas pela administração de Bush, incluindo a responsabilização pela criação do ISIS e da morte de milhares de cidadãos iraquianos inocentes.

O solilóquio final de Bale no filme – e não estamos falando do “final”, com direito a crédito e tudo mais, que o diretor insere na metade do longa – é outro forte momento propositalmente shakespeariano e único ponto em que Cheney quebra a quarta parede: um resumo do forte posicionamento político do diretor, em que o texto diz uma coisa e as atitudes dizem outra. Mary Cheney que o diga.

 

Clipping de matérias nacionais da época, retiradas de meu arquivo pessoal sobre a Guerra ao Terror retratada em Vice: informações estranhas e desencontradas e uma grande sensação de “algo não bate nisso tudo”.


 

Por fim, não deixe de conferir a cena pós-créditos, extremamente divertida e que poderia ser convertida para uma versão nacional apenas alterando o nome dos políticos mencionados ali. A ignorância do cidadão médio face ao verdadeiro controle que tramita nos bastidores é semelhante em todo o mundo. Impagável.

Vice, um dos melhores filmes que conferi em 2018, diz em sua abertura ser “tão verdadeiro quanto possível”, inferindo e extrapolando diversos fatos históricos para fins de argumentação, propaganda e comédia. Na era da pós-verdade e das fake news, com ou sem ironia, Vice acaba sendo, no entanto, mais documental que a Bíblia. Entenda como quiser.

 

Avaliação: Excelente!

Lucas Souza

O filme Vice estreou em 11 de dezembro do ano passado nos EUA. Ao primeiro olhar, ele pode parecer “só” mais um filme político que aborda um tema de forma mais profunda e nos mostra os bastidores das situações que, meros mortais, normalmente não tem acesso. Tratando de mostrar tudo que ocorreu por baixo dos panos no governo de George W. Bush, Vice inova de todas as formas possíveis no gênero que escolheu e pessoas que normalmente não dão uma chance a esse tipo de filme podem se surpreender com o dinamismo e velocidade com a qual as coisas acontecem na tela.

Vice é dirigido por Adam McKay e tem um elenco estrelado: Christian Bale (Dick Cheney), Sam Rockwell (George W. Bush), Amy Adams (Lynne Cheney) e Steve Carell (Donald Rumsfeld) são alguns dos nomes que abrilhantam a tela durante as mais de duas horas de filme. E, acredite, elas passam longe de serem maçantes. Não por outro motivo o filme foi indicado para concorrer em 7 categorias do Oscar – entre elas melhor filme e melhor ator.

 

Christian Bale entrega mais uma grande performance e as mudanças corporais são visíveis

 

A história é a biografia de Dick Cheney, vice presidente do governo Bush e figura recorrente nos bastidores políticos de Washington DC. Ele é casado com Lynne Cheney, que é quem o coloca nos eixos ainda na juventude. Quieto, impetuoso e ambicioso, Dick Cheney não demora a entrar no circuito político da capital com a tutela de Donald Rumsfeld. O filme é uma aula de história americana e vemos diversos momentos importantes dos EUA retratados pela mente do protagonista e de outras figuras políticas.

Até aqui você pode ter a falsa sensação de que esse filme é mais do mesmo. Mas não é. O seu tom absurdamente ácido e debochado esconde críticas e ilusões de grandeza de homens que podem, literalmente, mudar o destino do planeta com uma ordem ou o apertar de um botão. O tom leve e explicativo com o qual ele lida com questões complexas faz com que consigamos entender momentos e nuances históricas sem precisarmos ser especialistas em economia, história e afins. E é exatamente nesse ponto que ele conquista e engaja. Por isso, ao sair da sessão, você dificilmente terá a sensação de que ficou assistindo a um filme por mais de duas horas. E o melhor: ele não tenta “vender” um posicionamento político – o filme é “quase” 100% isento e a ideia é mostrar e retratar fatos de uma forma diferente.

 

Maquiagem também é um dos pontos altos de Vice: Sam Rockwell personifica Bush

 

Vice também abusa de dois recursos pouco usados em filmes políticos/biográficos. Ele não tem medo de dizer que não sabe como uma determinada decisão foi tomada pelo personagem título e sua esposa (dizer que não sabe é algo quase que proibido em filmes pretensiosos e de cunho político) e- mais do que isso – ele brinca com a situação imaginando como aquela decisão foi tomada. A cena Dick e Lynne na cama é a prova viva de que filmes políticos podem ser divertidos e leves. O segundo grande recurso usado em Vice são as metáforas, mas não como estamos acostumados ou não como vimos em House of Cards, por exemplo. Aqui elas são visuais e fazem parte da história e do ritmo da narrativa. Cada expressão/olhar já fala por si só, mas o filme vai além e escancara a todo momento as intenções dos personagens não deixando margem para interpretações (e isso funciona muito bem!). E, alfinetadas a parte, Deadpool poderia ter uma AULA de como quebrar a 4ª parede com esse filme (é sério!).

Além de ter um roteiro excelente, Vice também conta com atuações primorosas que nos prendem a tela. Não é aquele tipo de filme onde um ator ofusca os outros ou onde ficamos aguardando o ator principal (Christian Bale) retornar porque sem ele o filme fica “chato”. Com ou sem o protagonista, o filme se desenvolve e as cenas são sempre interessantes e convincentes. Tenho certeza de que todas as cenas de “focus group” (recurso de marketing usado para pesquisa e mostrado de forma visceral no filme) vão te divertir.

Vice vem para popularizar e renovar os filmes políticos. O sarcástico pretensioso dá lugar ao ácido simples. Não é preciso ter mestrado em ciências políticas para gostar, entender e se divertir com o filme. E esse é seu maior mérito. Em um ano de Aquaman, Pantera, Vingadores e tantos outros filmes com a proposta de entreter, posso dizer que o filme de Adam Mckay foi o que conseguiu atingir o objetivo da melhor forma possível. Minha recomendação? Diga não ao preconceito com filmes sobre homens engravatados em posições de poder e corra ao cinema assim que estrear no Brasil.

 

Avaliação: Excelente!

 

 

Trailer

 


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