Ultimato do Bacon

Tabloide de L M Melite – O Ultimato

Em 15 de Jan de 2021 4 minutos de leitura
Tabloide de L M Melite

Tabloide de L M Melite é uma HQ Brasileira que explora uma investigação jornalística sobre um corpo vestido de noiva, aparecido em uma represa no interior de São Paulo

Tabloide de L M Melite, publicado em 2017 pela Veneta, é uma das obras mais recentes do autor, já experiente nesta área dos quadrinhos.

Leandro Melite é autor também de Dupin (2015) – HQ inspirada em Os Assassinatos da Rua Morgue (The Murder in the Rue Morgue, 1841) de Edgar Allan Poe – e o anterior, Desistência do Azul – Um pretensioso ensaio sobre a memória e a imaginação (2012), ambos publicados pela Zarabatana Books.

A HQ tem um formato que ultimamente parece estar ganhando mais espaço no mercado editorial – já comentei isso nos podcasts de DC Black Label, Batman: O Último Cavaleiro da Terra e Arlequina: Harleen – o tamanho 21 x 28,5 cm.

Em cores, Tabloide de L M Melite sabe tomar proveito do formato ligeiramente maior e o miolo em offset, com cores especiais, valorizando demais a arte e propiciando uma leitura da HQ mais agradável e confortável aos olhos.

Sinceramente, o papel brilhante tem cada vez mais incomodado durante a leitura e a escolha editorial para Tabloide de L M Melite é bastante agradável.

Vale ainda ressaltar que o título foi aprovado para o ProacSP – programa de incentivo e fomento à Cultura do Estado de São Paulo.

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Tabloide de L M Melite – a HQ

Antes de entrarmos na trama, é importante dizer que, como é bastante característico do autor, seu estilo tem muito do traço europeu de quadrinhos e não é raro que leitores desavisados confundam a obra de Leandro – especialmente depois que ele passou a assinar o rebuscado L M Melite – como sendo a de algum quadrinista francês ou belga.

Em alguns quadros, a sensação que eu tinha lendo Tabloide de L M Melite era a de estar assistindo As Bicicletas de Belleville (Les triplettes de Belleville, 2003) de Sylvain Chomet, só que situado em São Paulo.

Na trama da HQ, Samantha Castello trabalha na imprensa marrom, em um periódico chamado Tabloide.  Do tipo “gênio incompreendido”, ela é ressentida com os leitores, os editores e os “premiados”. Ela faz a vez da heroína beatnik ou punk, que não se preocupa com nada a não ser o ódio pelo alheio a si. Egocêntrica, é super analítica, relaxada, pouco asseada e não resiste a investigar um caso que vai ter pouca atenção da polícia ou da mídia em geral.

Tabloide de L M Melite

Quem é a melhor? Samantha Castello. Afinal, leitor nenhum teria a sensibilidade de entender o que ela tem a dizer.

Toda essa descrição é dada pelos quadros iniciais de Tabloide de L M Melite e um dos grandes trunfos do autor é justamente sua narrativa visual. A forma como ele trabalha o nanquim é quase impecável – apesar da obra ser colorida, notem a qualidade da capa em p&b. A publicação pede uma “versão noir”, abusando do chiaroscuro, com certeza.

Samantha começa então a investigar a aparição de um corpo na represa Atibainha, no interior de São Paulo. Toda a trama é conduzida na melhor levada de história policial, com a jornalista investigando suspeitos, carregando seu fotógrafo e assistente Horácio para cima e para baixo, contatando Gallo, seu contato na polícia e cutucando os vespeiros para desenterrar sua matéria.

A história em si não tem nada de novo. No entanto, a forma como Melite a conduz é brilhante: como uma notícia de um tabloide sensacionalista, os eventos vão ficando cada vez mais confusos e surreais, misturando passados obscuros, seitas religiosas e círculos fetichistas.

A simulação de suporte, imitando veículos da imprensa marrom: um dos pontos altos da HQ.

Tudo fica ainda mais crível, especialmente para o leitor acostumado com o cenário urbano de São Paulo, quando vemos representados locais típicos da cidade ou as confecções clandestinas do Brás, por exemplo.

Tabloide de L M Melite – o ponto fraco

No entanto, Tabloide de L M Melite tem um ponto fraco. Não estou falando dos divertidos easter eggs às personagens consagradas do jornalismo investigativo como Julia Kendall ou Kate Mahoney de A Dama de Ouro (Lady Blue, 1985 – 1986).

Minha crítica vai à tentativa de uma certa erudição que a personagem (ou seria o autor?) imprime durante toda a obra. Referências que são tão sutis e obscuras que podem deixar os leitores perdidos em certos momentos da HQ.

Momentos filosóficos da protagonista acrescentam à intenção geral da trama… deixando a obra ainda menos acessível para a maioria dos leitores.

Além de certas quebras que não funcionam, interrompendo a narrativa de maneira pouco natural e talvez mais pretensiosas do que bem sucedidas.

Erudição e etmologia: no fim, a merda é a mesma?

Reforço que Tabloide de L M Melite é uma obra verdadeiramente muito boa. Mas acredito que é preciso certo cuidado com a síndrome de Alan Moore (ou Grant Morrison; ou Möebius). Especialmente quando a edição lembra produtos da Panini ou Eaglemoss, usando “mais” no lugar de “mas”.

Sendo bem didático: de pouco adianta enfiar duzentas referências e frases em latim e errar no português. E não, não foi proposital. Faltou revisão.

Mas: conjunção coordenativa que liga orações ou períodos com as mesmas propriedades sintáticas, introduzindo frase que denota basicamente oposição ou restrição ao que foi dito; sinônimo de porém, contudo, entretanto, todavia. Mais: advérbio que possui  o sentido de “algo em maior quantidade ou com maior intensidade”.

Infelizmente esse tipo de coisa me incomoda tanto, que uma obra que por pouco não recebe a nota máxima aqui, acabou perdendo dois bacons de uma só vez.

Ainda assim, recomendo aos fãs de histórias policiais, aos colegas jornalistas e quadrinhistas ou a qualquer leitor curioso que queira explorar as boas HQs Brasileiras de um modo geral. Tabloide de L M Melite dificilmente vai te deixar indiferente.

 

Avaliação: Bom.

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Créditos:
Texto, Imagens e Edição: Alexandre Baptista

Matéria publicada originalmente em 15 de janeiro de 2021.

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