Roma
Ano: 2018 Distribuição: Netflix
Estreia: 14 de Dezembro (Brasil) 

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón

Duração: 135 Minutos  

Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey 

Sinopse: “Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.”

 

 

 

Alexandre Baptista

Laureado nas mais importantes premiações de cinema mundiais, Roma é um daqueles filmes que justificam a sétima arte

Obra de arte brilhantemente dirigida por Alfonso Cuarón é uma ode a sua infância e às mulheres que o criaram

por Alexandre Baptista

 

Colonia Roma é um bairro de classe média alta da Cidade do México, com ruas arborizadas e pequenos palacetes dos anos 20, de inspiração inglesa e francesa, mimetizando o Art Noveau e a Belle Époque. Lugar familiar a Alfonso Cuarón, diretor de Roma, uma vez que cresceu em uma residência situada ali, na Rua Tepeji – que inclusive aparece no filme.

Em um cuidadoso resgate da vida social mexicana no início da década de 70, final de 1970 e parte de 1971 mais precisamente, Cuarón, que também escreveu o filme, faz uma homenagem a Liboria “Libo” Rodriguez, mulher de origem indígena que trabalhava para a família de Cuarón em sua infância.

No longa, Libo é representada pela personagem Cleo, interpretada de maneira magistral por Yalitza Aparicio, merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Aparicio entrega uma interpretação tão crua e realista da empregada que por vezes se tem a impressão de estar assistindo um documentário ou um vídeo de levantamento sócio-ambiental.

O elenco de maneira geral, entre atores mirins e adultos, é muito convincente e Marina de Tavira como a Sra. Sofia dá um excelente contraponto a Cleo: apesar das diferenças sociais, a constante da força feminina face ao descaso e abandono masculino gera em ambas a resignação e a resolução do seguir em frente.

O feito realizado pelo elenco não é pequeno. Mas é importante nominar o grande responsável pelos 32 prêmios recebidos por Roma, dentre os quais, o Leão de Ouro em Berlim para Alfonso Cuarón; Oscars de Melhor Diretor, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia; BAFTAs de Melhor Direção, Melhor Fotografia, Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro; Globos de Ouro de Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro: o diretor e roteirista Alfonso Cuarón.

Desde a direção dos atores, que recebiam os scripts de cada cena somente no dia em que iriam filmá-la – justamente para que o texto não estivesse decorado e fosse o mais natural possível – até a direção de câmera e a opção por planos-sequência belíssimos (uma marca registrada de Cuarón), o longa tem em cada frame a assinatura do mexicano que é hoje um dos maiores diretores do mundo.

A fotografia é impressionante e demonstra com clareza que filmar em preto e branco não é somente remover a saturação de um filme colorido. Como muitos sabem, algumas cores quando passadas ao preto e branco se tornam tons de cinza similares, muito próximos entre si e quase homogêneos. “Pensar em preto e branco” é importante para definir figurinos e design de produção a fim de garantir densidades e contrastes interessantes ao espectador. Ed Wood (1994) de Tim Burton é um exemplo em que a escolha pelo P&B é muito bem realizada. Em Roma, no entanto, Cuarón simplesmente dá uma aula nessa técnica e estilo de cinema.

Outro detalhe importante do filme é o design de som. O diretor chegou a divulgar um vídeo sobre essa questão e, uma vez que a grande distribuição de Roma foi pela plataforma Netflix e não nos cinemas, fazendo com que o espectador confira a produção em casa, ele explica de maneira geral como regular os ajustes de som para que cada um consiga ter a melhor experiência possível da produção, sem necessariamente ter que estar numa sala de cinema.

E faz diferença: além dos diálogos e barulho dos aviões (Roma fica num dos grandes corredores de tráfego aéreo mundiais), temos os sons das ruas, pássaros, rádios que tocam ao fundo, televisores, barulhos do hospital, vendedores nas calçadas e uma riqueza infinita de sons urbanos e rurais (uma das cenas no Ano-Novo se passa em uma fazenda), transformando a sonorização do filme, mais do que a simples ambientação, em um importante personagem do longa.

Outro detalhe digno de nota é a reconstituição histórica. Se por um lado muitos enalteceram Bryan Singer em Bohemian Rhapsody por recriar a apresentação do Queen no Live Aid nos mínimos detalhes, Cuarón também faz algo parecido. Só que aqui trata-se do Massacre de Corpus Christi ocorrido em 10 de junho de 1971 na Cidade do México.

 

Jovens armados durante El Halconazo ou Massacre de Corpus Christi em 10 de junho de 1971… [Foto: The National Security Archives]

…cena recriada em outro ângulo por Alfonso Cuarón em Roma. [Netflix]


 

Por fim, até mesmo pequenos easter eggs metalinguísticos estão inclusos no longa. O personagem inspirado no diretor, Pepe, interpretado por Marco Graf, além de apaixonado por aviões (o diretor queria ser piloto quando criança), fica deslumbrado em uma das cenas ao conferir no cinema Sem Rumo no Espaço (Marooned, 1969). Além de corresponder a um fato literal da infância de Cuarón, este foi o filme que inspirou outra obra do autor, o vencedor do prêmio da Academia Gravidade (Gravity, 2013). A cena em questão deixa essa inspiração clara de uma maneira elegante e singela.

Roma é um filme mexicano, falado em espanhol e mixteco, preto e branco, com mais de duas horas. Apesar de parecer para muitos uma descrição desanimadora, Roma é um longa que vai além da técnica ou suporte, falando em uma língua de subjetividade e arte. Roma é cinema. E cinema de primeiríssima linha. Um filme obrigatório para os fãs da sétima arte.

 

 

 

Avaliação: Excelente!

 

 

 

Trailer:

 

Featurette sobre o som do longa:

 
 
 

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