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Prisioneiro dos Sonhos: O Processo de Marc-Antoine Mathieu – O Ultimato

Em 11 de Jul de 2023 3 minutos de leitura
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Conheça o segundo volume da série que brinca com a materialidade do livro-objeto em Prisioneiro dos Sonhos: O Processo

O Processo (1993), 48 páginas, é o segundo álbum de Julius Corentin Acquefacques, prisioneiro dos sonhos impresso no Brasil e o terceiro da sequência original. Não é uma versão direta de O Processo (1921) de Franz Kafka (1883-1924), embora haja inúmeros paralelos.

A série de Marc-Antoine Mathieu vem sendo publicada pela editora Comix Zone, com os dois primeiros volumes lançados em 2022 e o terceiro, O Começo do Fim (1995), em junho deste ano. As histórias podem ser lidas em qualquer ordem. Caso você não conheça a série, sugerimos que clique aqui para ler O Ultimato do primeiro volume, A Origem (1990).

Qual a trama de Prisioneiro dos Sonhos: O Processo de Marc-Antoine Mathieu

O Processo tem início com nosso protagonista, Julius Corentin Acquefacques, acordando em seu pequeno studio após cair do leito. A crise habitacional se agravou e ele teve que sublocar o imóvel, mais especificamente o guarda-roupas, onde um colega de Ministério agora vive, com direito a cama, mesa, pia… tudo lá dentro. De cara vemos que o surrealismo segue em alta na série.

A imagem de espirais se repete discretamente – ou não –, do relógio à xícara de café. Pouco depois, de terno e pronto para sair, Acquefacques encontra uma versão dele mesmo de pijamas, levantando do colchão e falando coisas aparentemente sem sentido, como “eu errei de sonho” e “o teto voltou.”

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Na história do processo, Acquefacques se perderá em uma terceira dimensão a partir de um sonho

Acquefacques, o original, foi convocado para uma consulta com o Dr. Koff na Fábrica de Sonhos e quer sair logo para não se atrasar. O Acquefacques de pijama tenta impedi-lo, explicando apenas que precisa deter o processo. Não consegue. O protagonista pega um taxi pela janela.

Na verdade, O Processo tem um prólogo que fala sobre o defeito no relógio de parede do Acquefacques, algo que poderia influenciar o bom funcionamento do tempo. De fato, acontecerá uma confusão após a chegada na Fábrica, que levará o protagonista a se perder de seu sonho e desvelar uma terceira dimensão cheia de mistérios e lapsos temporais. Qual será o processo citado no começo da trama e como Acquefacques escapará desse lugar?

Vale a pena ler?

O fio condutor de O Processo está na interposição das ideias de sonho, tempo e espaço. É incrível perceber que nas mãos de mentes geniais como Marc-Antoine Mathieu, algo que pareceria uma ideia esgotada – vide tudo que Neil Gaiman fez em Sandman (1989-1993), por exemplo – pode ir mais e mais longe.

A arte P&B de contraste de Mathieu segue impecável e dando forma às sacadas incríveis do mundo proposto pelo autor. Um exemplo é a viagem de taxi. O veículo é uma bicicleta que anda por fios no alto, entre os prédios da cidade, deixando o trânsito popular lá embaixo – lembre-se que as ruas e ambientes são superlotados –.

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A aventura começa com um relógio adiantado e o encontro com outra versão do protagonista

A exploração da materialidade do livro-objeto continua, porém, em formato diferente de A Origem. Como em todos os volumes da série, é legal que o leitor tenha a surpresa quanto a isso. Seguimos, também, com o estilo kafkiano e seus temas centrais. A história não deixa de ser uma metáfora para os ciclos burocráticos da vida humana nos centros urbanos.

Indo mais longe, nos faz lembrar da Espiral do Silêncio da polêmica cientista alemã Elisabeth Noelle-Neumann (1916-2010). Em resumo, a teoria de que deixamos de expor nossa opinião quando acreditamos que a opinião pública é outra e, assim, cada vez menos pessoas que pensam de forma minoritária se manifestam. Mantem-se o padrão.

Em uma possível interpretação da HQ, na medida em que alguém se afasta dessa opinião dominante, fugindo do “efeito manada”, há uma instituição que o força a entrar na espiral novamente. Estamos entre a tendência psicológica do indivíduo e a manipulação das massas em prol de um status quo.

Acquefacques, funcionário exemplar, está por acaso nessa posição. Talvez ele nem tivesse saído do espiral. Oras, o lugar de sonhar é na cama durante o sono e o dia é para a burocracia cotidiana e seus processos – contém ironia –.

Mathieu progride com as experimentações que subvertem as fronteiras do real e imaginário. Quais formas de narrativa dentro da nona arte poderiam simbolizar isso? Os limites do sonho e da realidade? Do consciente e do inconsciente? Do desenho e da materialidade das folhas de papel? Sem spoilers! A cada edição de Julius Corentin Acquefacques, prisioneiro dos sonhos o autor nos impressiona mais. O que seria da arte sem os pontos fora da curva?

Gostou do texto? Leia outras matérias do David Horeglad (HQ Ano 1) para o UB!

PRISIONEIRO DOS SONHOS: A ORIGEM (2022) – O ULTIMATO

SONHONAUTA (2022) – O ULTIMATO

SMOKING MATA (2018) – O ULTIMATO

Avaliação: Excelente!

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Créditos:
Texto: David Horeglad – @hq_ano1
Imagens: Reprodução
Edição: Diego Brisse
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