Não Olhe (Look Away)
Ano: 2019 Distribuição: Paris Filmes
Estreia: 28 de Fevereiro (Brasil) 

Direção: Assaf Bernstein

Roteiro: Assaf Bernstein

Duração: 103 Minutos  

Elenco: India Eisley, Mira Sorvino, Jason Isaacs

Sinopse: “Uma solitária jovem de 18 anos não encontra suporte familiar e nem amigos para que possa desabafar sobre os problemas de sua vida. Cansada, ela começa a conversar com o próprio reflexo no espelho apenas para externalizar sua angústia, mas rapidamente descobre que está trocando de lugar com uma espécie de clone que tenta convencê-la a tomar atitudes vingativas.”

 

 

 

Alexandre Baptista

Não Olhe, do diretor israelense Assaf Bernstein, tropeça em seu terço final e destrói o que potencialmente teria sido um razoável thriller psicológico

Longa que estreia amanhã, 28 de fevereiro, decepciona apesar do bom elenco e da proposta interessante

por Alexandre Baptista

 

Não Olhe (Look Away), segundo longa de Assaf Bernstein – o primeiro produzido no Canadá – começa bem, com uma cena de um exame de ultrassom mostrando dois bebês se movimentando no útero de sua mãe.

Pra quem já está acostumado com o tema, seja em Alma Perdida (The Unborn, 2009) ou American Horror Story, a ideia de um gêmeo não nascido que volta pra aterrorizar a família através da possessão ou incorporação do bebê sobrevivente, agora adulto, não é original. Mas continua interessante.

Só que a trama que estrela India Eisley no papel de Maria parecia ainda melhor que isso. Em seu início, a história deixa essa hipótese meramente sugerida e trata de trabalhar e desenvolver as personagens: vemos a típica história de uma adolescente que sofre bullying na escola; tem uma amiga que a apoia, mas nem tanto; é insegura em função de tudo o que passa, especialmente por conta da presença dominadora do pai autoritário e obtuso – o cirurgião plástico Dr. Dan (Jason Isaacs); e assim, vive frustrada, isolada e não consegue se envolver romanticamente com nenhum dos garotos.

Após uma série de situações que a forçam cada vez mais a reagir, Maria descobre em seu espelho uma impressão de um ultrassom mostrando duas crianças. A partir dessa “descoberta”, Maria passa a ver em seu reflexo no espelho e janelas, uma garota como ela, mas que se movimenta, pensa e fala com vontades próprias e se propõe a ajuda-la, assumindo seu lugar no mundo real e resolvendo os problemas da garota por ela. Maria, no entanto, acaba não trocando de lugar com seu reflexo, que se apresenta como Airam.

Essa troca só ocorre após o desastre do tradicional baile de formatura – um ponto de virada clássico, como em Carrie, A Estranha (Carrie, 1976; 2013). Mas a presença de Airam no mundo físico não é ainda o ponto em que a boa construção do roteiro desanda.

A trama em nenhum momento, mesmo após a primeira morte – sim, ocorrerão mortes – afirma ou define com qual fenômeno estamos lidando: possessão demoníaca, espírito vingativo, distúrbio dissociativo de identidade… A mãe de Maria, Amy (Mira Sorvino), tem pesadelos sobre seu parto; o pai dela, o Dr. Dan, mais de uma vez aponta que a garota precisa de ajuda, mencionando que ela tem problemas ou que tem estado sem dormir a dias… privação de sono, alienação social, repressão e abuso psicológico: receitas infalíveis para problemas ainda mais graves e que não necessariamente envolvem o transcendente ou imaterial.

Então, ocorre a primeira morte e a vingança de Airam sobre o bully de Maria. E aí história se perde, a garota passa a se comportar de maneira ainda mais ilógica: seguem-se mortes aleatórias e injustificadas… gratuitas até.

Alguns irão dizer: "mas ela tinha motivo pra fazer o que fez". O problema não é o terceiro ato do filme ser gratuito, chutar o balde e beirar o ridículo. O problema é que o filme até então era razoável, interessante até – um pouco previsível talvez, mas havia até uma chance de envolver alguma psicopatia na mãe da garota (toda a questão da gravidez das gêmeas é sugerida… mas jamais no longa ela é de fato afirmada como real pelos personagens).

Mira Sorvino no papel da mãe apática está muito bem e Jason Isaacs é, como sempre, um ponto sólido, elegante e confiável na atuação. India Eisley convence nas interpretações opostas de Maria e Airam e, se o filme falha, certamente não é por culpa do elenco.

O problema, enfim, é que a premissa era boa e a execução final foi abaixo do pior que se poderia esperar.

Algo que incomoda bastante em Não Olhe é o lobby “cigarro & bebidas”, cercado por muita nudez e sexo pra romantizar a coisa toda. Longe de ser contra essa representação no cinema, aponto-a aqui pois a gratuidade neste longa é tanta e gera cenas tão desnecessárias, que sente-se a falta de um narrador, apresentando a marca do cigarro ou da bebida após as mesmas.

Para coroar uma reta final desastrosa (que não detalho aqui pra não dar spoilers), a última cena é simplesmente uma “poesia visual” ridícula, previsível e desnecessária.

Assaf Bernstein dedica, nos créditos, o filme a seu pai. Talvez aí esteja a grande chave de leitura pra entender porque ele simplesmente “vomita” o final do longa.

A trilha sonora é outro ponto que incomoda muito, mas a essa altura, resta somente lamentar a perda de uma grande chance para Bernstein de abrir caminho no cinema norte-americano. Sinceramente, para os aficionados do gênero, um desperdício de uma ideia que poderia ter sido muito boa.

 

 

Avaliação: Ruim

 

 

Trailer:

 
 
 

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