It – Capítulo Dois (It Chapter Two)
Ano: 2019 Distribuição: Warner Bros.
Estreia: 05 de Setembro (Brasil)

Direção: Andy Muschietti

Roteiro: Gary Dauberman (roteiro); Stephen King (baseado no livro)

Duração: 170 Minutos  

Elenco: James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader

Sinopse: Vinte e sete anos depois dos eventos que chocaram os adolescentes que faziam parte do Clube dos Perdedores, os amigos realizam uma reunião. No entanto, o reencontro se torna uma verdadeira e sangrenta batalha quando Pennywise, o palhaço, retorna.

 

 

Alexandre Baptista

Inferior ao primeiro, It – Capítulo Dois entrega uma bela obra, com péssima computação gráfica

Como uma metáfora sobre a superação do medo, o longa encerra sua narrativa de forma mais fiel ao livro

por Alexandre Baptista

 

Antes de começar, já respondo a clássica pergunta de sempre e digo: sim, It – Capítulo Dois, como o título sugere, começa exatamente de onde termina o primeiro, funcionando como uma continuação direta. Se você não viu It – A Coisa (It, 2017), não vai entender muita coisa do novo (ainda que o primeiro funcione muito bem sozinho).

Resposta dada, vamos lá.

Os filmes de terror podem se valer de diversos recursos para deixar a plateia tensa, assustada ou mesmo incomodada de alguma forma.

Os diretores podem se valer de elementos visuais, mostrando a violência e exagerando no sangue, perfurações e todo o tipo de grafismo, indo para o gore ou splatter; podem se valer da ambientação sonora, da caracterização de cena e até mesmo da história para o terror psicológico; ou ainda, recurso mais explorado atualmente, utilizar a técnica do jump scare, apelando para o susto inesperado e que te pega em vez de construir o medo no espectador.

Um dos grandes méritos da franquia It, nos livros e nos cinemas, é a presença de Pennywise, o palhaço dançarino. Como muitos sabem, palhaços representam uma fobia cientificamente comprovada – parte da população tem um medo irracional e primitivo de palhaços. Tal fobia está relacionada ao instinto de sobrevivência e é devida a natureza imprevisível dos personagens, reforçada em suas vestimentas e maquiagens. Assim, a construção do medo na plateia já tem, de saída, um belo alicerce.

Embora contando com este grande trunfo, It – Capítulo Dois remove bastante de sua força se compararmos com It – A Coisa: no primeiro, a presença do palhaço era mais marcada e as demais formas da coisa se valiam de menos computação gráfica e mais efeitos práticos (zumbis, leprosos e piscinas de sangue, com exceção ao quadro da mulher); no segundo, até mesmo Pennywise é mais “trabalhado no digital” e praticamente todas as outras aparições da coisa parecem toscas e artificiais.

O alicerce acaba recebendo uma estrutura de papelão, perdendo a força que estava sendo continuamente construída no imaginário da plateia.

Uma cena em que isso é bastante evidente é aquela em que Beverly (Jessica Chastain) visita seu antigo apartamento e encontra uma senhora vivendo lá. A conversa de Beverly com a velha é muito mais tensa e assustadora que a forma final da coisa quando ataca, parecendo uma Úrsula de A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989) malfeita em live action.

Com seu grande trunfo diminuído, este segundo longa aposta mais em jump scares para conseguir a reação da plateia; menos singelo que o primeiro, está ligeiramente mais próximo do trash ao cometer esses pequenos pecados. Mas, apesar de tudo isso, é um filme que funciona muito bem em diversos aspectos.

O primeiro deles talvez seja justamente o motivo de It – Capítulo Dois ser “pior” que o longa de 2017: é muito mais fiel ao livro. Como sempre repito por aqui, uma boa adaptação é em geral fiel à essência de algo, mas não necessariamente uma reprodução literal daquilo.

Nesta continuação, o diretor Andy Muschietti se aproximou mais do estilo narrativo do livro, com flashbacks, retornos e jornadas individuais, mantendo intactos muitos elementos que, no primeiro capítulo, foram ligeiramente alterados, suprimidos ou evitados para um enfoque apenas nos personagens ainda crianças.

De toda forma, se erra ao funcionar um pouquinho menos como cinema, acerta ao ser mais fiel ao material original.

Outro ponto alto é a atuação brilhante de Bill Skarsgard como Pennywise: o ator já havia provado que podia ocupar os sapatos de palhaço de Tim Curry, estrela da versão de 1990, It – Uma Obra Prima do Medo (It); agora, brilha mais uma vez, com mais espaço em cena.

O restante do elenco é ótimo e o Clube dos Otários adulto funciona tão bem quanto o infantil que retorna nos flashbacks já mencionados. Destaque para James Ransone como Eddie, em uma atuação tensa e ao mesmo tempo cômica no melhor estilo neurótico do personagem.

A trilha sonora de Benjamin Wallfisch apresenta a mesma competência do primeiro capítulo com alguns novos temas percebidos principalmente no ato final do filme.

As referências e easter eggs são poucos, mas muito bem colocados: em uma cena muito engraçada, há uma referência a Jabba, o Hutt da franquia Star Wars; uma referência visual muito boa a O Iluminado (The Shining, 1980), também baseado em um livro de Stephen King, em outra; e uma participação especial do próprio autor no filme; além de outras menções e referências como os letreiros dos cinemas, a bicicleta de Bill chamada de “Silver” e pequenos acenos.

Por fim, uma qualidade que muitos espectadores podem ver como defeito é a duração do longa. Com quase três horas de duração, ele sai um pouquinho da média a que o grande público está acostumado em projeções cinematográficas. Muitos certamente irão defender que o filme poderia ser mais curto e direto.

No entanto, quando pensamos em alguns formatos de streaming – como por exemplo Good Omens (2019), apresentado como uma minissérie de seis capítulos de 1 hora – percebemos que certas histórias precisam de um pouco mais de desenvolvimento e respiro; precisamos de fato conhecer certas interações entre os personagens, certas motivações, certos arcos paralelos, para que a metáfora final realmente funcione e não pareça apenas mais um sabor da semana, coberto de açúcar de confeiteiro.

Em uma trama com 7 personagens que tiveram desenvolvimentos individuais nesse intervalo de 27 anos, seria complicado simplesmente assumir certas ligações sem antes desenvolvê-las. Afinal, uma das grandes metáforas que podem ser atribuídas à coisa, é justamente a do medo que sentimos: tem o tamanho que o deixarmos ter e, enfrentando nossos traumas e problemas mal resolvidos, estamos no melhor caminho para deixar de temer o que quer que seja.

Para que o público se relacione com esses medos, com a amizade do grupo, com a dificuldade em crescer e assumir uma vida adulta, é preciso mostrar isso. E, convenhamos, a grande maioria dos filmes de terror não são conhecidos por terem grandes desenvolvimentos de personagens ou de suas relações, o que faz do longa de Muschietti algo mais.

Mais do que um filme de terror, It – Capítulo Dois acaba sendo uma narrativa de superação dos medos, de amadurecimento e de entrada na vida adulta, além do importantíssimo papel que grandes amizades representam nessa jornada.

 

 

 

Avaliação: Ótimo!

 

 

 

Trailer

 

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