Ultimato do Bacon

Duna (2021) – O Ultimato

Em 20 de Out de 2021 5 minutos de leitura
Duna Frank Herbert Dennis Villeneuve Wall

Duna, adaptação de Dennis Villeneuve para a obra de Frank Herbert, estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 21 de outubro de 2021.

Índice

Duna – introdução

O ano é 2001. O assunto entre os nerds não é outro senão a adaptação de Peter Jackson para a obra de Tolkien, O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Em dezembro daquele ano, a expectativa do “nicho” atingiu a grande massa: com 2h58 de duração, o filme conquistou plateias que jamais haviam ouvido falar dos hobbits, Tolkien ou da Terra-Média.

O ano é 2021. O assunto entre os nerds é uma salada de coisas, referências e produtos feitos para cada uma das novas tribos – do geek ao nerd raiz; do bazingueiro ao lombadeiro. No entanto, um assunto é unânime: discretamente, sem um grande hype, vem aí a nova adaptação de Duna, pelas mãos do incrível Dennis Villeneuve (A Chegada, Blade Runner 2049) e com um elenco impecável. A expectativa é alta.

E Villeneuve repetiu a mágica de Peter Jackson. Pegou uma obra “inadaptável” e realizou uma incrível adaptação para seu primeiro capítulo. Já antecipo, dei a nota máxima e insisti com a coordenação do Ulimato do Bacon para que abríssemos uma exceção e déssemos uma nota maior que 5 bacons a este filme. Mas não rolou.

Esqueça paralelos com o livro de Frank Herbert ou respeito à obra original. Duna realiza tudo isso sim, mas mais importante que isso é a nova obra, o filme, funcionar para os novos espectadores como cinema. E isso acontece de maneira belíssima.

Esqueça também comparações com outras adaptações, seja com Duna (1984) de David Lynch – que também tinha um elenco impecável; seja com Duna (2000) de John Harrison – a minisserie pra TV que todos que conheço descreviam como “fiel ao livro, mas chata e ruim de assistir”; seja ainda com a adaptação para HQs homônima de Brian Herbert, Kevin J. Anderson e ilustrações de Raúl Allén e Patricia Martín.

Embarque na jornada cinematográfica proposta por Villeneuve e aproveite. Ah, e sim, fuja dos bootlegs ou cópias piratas que rodam por aí. Se você puder e já estiver confortável com isso, proteja-se e vá ao cinema, em uma boa sala. Como sempre falo por aqui, sou adepto da “igreja IMAX de cinema” e confesso minha fé: é outra experiência.

Duna – aspectos técnicos

A primeira coisa que chama atenção nos filmes de Villeneuve é, obviamente, sua direção. O franco-canadense não parece se abalar com a urgência de Hollywood e dá ao longa uma cadência perfeita, cheia de respiro, para contar também nos detalhes e sutilezas de cena a densa história criada por Herbert.

Um belo exemplo disso é a forma como o diretor mostra a linguagem não-verbal de Lady Jessica (Rebecca Ferguson) e Paul Atreides (Timothée Chalamet) em diversas cenas, sem a necessidade de ser “didático” com o público.

Outro ponto alto do longa – mas que certamente pode incomodar alguns espectadores – é a trilha sonora de Hans Zimmer, um apaixonado pela obra de Herbert, que parece ter alcançado sua melhor trilha sonora.

A música é exótica, extraterrena, pungente e, ainda assim, mundana e familiar. Apesar de ser bastante presente no longa todo e não ser muito sutil, a trilha transparece a paixão com que deve ter sido composta – o compositor recusou a realização da trilha de Tenet (2020) de Christopher Nolan, com quem costuma colaborar, para poder estar presente em Duna.

Ainda falando de som, ressalto os efeitos sonoros, em especial quando Bene-Gesserit usam “a Voz”: uma experiência que só é completa em uma boa sala de cinema ou caso você tenha um ótimo sistema de som em sua casa.

Além dessas características, vale também ressaltar a qualidade das cenas, do design das peças e máquinas, vestuário e cenários, bem como as renderizações digitais e a fotografia do longa. Ainda que em Arrakis haja muita “sujeira” em função das tempestades de areia, ver o universo de Duna ganhar vida sem as limitações técnicas dos anos 80 é um desbunde.

Por fim, o elenco, como já mencionei anteriormente, é impecável. Chalamet no papel principal esbanja talento e dá uma gravidade a seu Paul Atreides – não, ele ainda não será Muad’Dib neste longa – em toda e qualquer cena. Contido, serene, focado.

E, obviamente, não é o único: Ferguson entrega uma Lady Jessica perfeita, capaz de transitar entre o medo e a força em segundos; Oscar Isaac dá a ideal medida para Leto Atreides, o patriarca que ainda guarda um espírito aventureiro e destemido; Josh Brolin, Javier Bardem, Dave Bautista, Stephen McKinley Henderson… é difícil destacar individualmente cada uma das atuações, uma vez que interpretam personagens tão icônicos de forma tão precisa. Destacam-se David Dastmalchian que faz um excelente trabalho com seu Piter de Vries, assumindo à altura o legado de Brad Dourif; Jason Momoa e seu Duncan Idaho – em certa medida, o Boromir de Duna; e, sem sombra de dúvida, o Barão Harkonnen de Stellan Skarsgard. Finalmente o vilão recebe um tratamento digno de sua estatura, com direito a uma cena-aceno a Marlon Brando em Apocalypse Now (1979) – cena em que ambos personagens enxugam com a mão nua a careca molhada, em vista superior.

Duna – trama e conclusão

Pra você que não sabe do que se trata Duna, vamos lá. No futuro e em uma galáxia muito distante, a Especiaria é um produto que, refinado, permite a viagem espacial; o Imperium e suas Casas controlam diversos planetas, em um sistema hierárquico que lembra muito o sistema feudal.

A Especiaria é encontrada no desértico planeta Arrakis, lar dos Fremen – raça humanóide que vive em cavernas e túneis sob as areias do planeta e que consome a Especiaria como droga ritual e sagrada. Extraída pela Casa Harkonnen de maneira ostensiva e exploratória, a Especiaria representa controle e poder, demonstrado em particular com a ferocidade com que os Fremen são tratados sob jugo Harkonnen.

A Especiaria fica na areia de Arrakis.

Esta “ordem” no Imperium, quase centenária, se altera quando a Casa Atreides começa a prosperar e causar preocupação e inveja no imperador que determina aos Atreides que assumam o controle em Arrakis, no lugar dos Harkonnen, criando um clima de animosidade entre ambas casas.

E sim, não dei nenhum spoiler até aqui. Esta é a trama de fundo que em Star Wars, por exemplo, estaria nos créditos iniciais. Obviamente, paralelamente a tudo isso, temos a trama do “prometido”, do “messias”… Paul Atreides. E os Shai-Hulud, vermes gigantes do deserto de Arrakis que são, certamente, parentes dos sarlacci de Tatooine.

Por fim, uma das grandes preocupações minhas ao conferir o longa era “qual será o corte?”. Onde Villeneuve escolheria interromper a história? Assim como em 2001, em que usávamos a animação de O Senhor dos Anéis (1978) de Ralph Bakshi como base para especular o filme de Peter Jackson, mantive muito do filme de 1984 na cabeça, tentando imaginar qual seria o evento ou cena para o “fim” desta primeira parte de Duna. Imaginei um ponto. Para mim, antes disso, seria cedo demais. Depois disso, “espremeria” muita coisa no primeiro filme e correria o risco de, assim como no longa de David Lynch, ficar um filme corrido demais em seu terço final. E essa foi a última medida para a nota máxima. Villeneuve interrompe a narrativa no ponto perfeito e preciso para que o primeiro arco de Paul Atreides se complete, sem que o espectador saia da sessão se sentindo engando ou tendo visto uma história incompleta ou “pela metade”.

Duna talvez não atinja o sucesso comercial que merece. O ano é 2021 e, como diria Galadriel na abertura do longa de 2001, “o mundo mudou”. Mas aos fãs de Frank Herbert e apreciadores de grandes sagas nos cinemas, fica a dica metafórica: Duna de Dennis Villeneuve é o novo Senhor dos Anéis.

Avaliação: Excelente!

Créditos:
Texto e Edição: Alexandre Baptista
Imagens: Reprodução
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