Doutor Sono (Doctor Sleep)
Ano: 2019 Distribuição: Warner Bros.
Estreia: 07 de Novembro

Direção e Roteiro: Mike Flanagan; Stephen King (baseado no livro de)

Duração: 151 Minutos  

Elenco: Rebecca Ferguson, Ewan McGregor, Jacob Tremblay

Sinopse: Na infância, Danny Torrance conseguiu sobreviver a uma tentativa de homicídio por parte do pai, um escritor perturbado por espíritos malignos do Hotel Overlook. Danny cresceu e agora é um adulto traumatizado e alcoólatra. Sem residência fixa, ele se estabelece em uma pequena cidade, onde consegue um emprego no hospital local. Mas a paz de Danny está com os dias contados a partir de quando cria um vínculo telepático com Abra, uma menina com poderes tão fortes quanto aqueles que bloqueia dentro de si.

 

 

Alexandre Baptista

Com diversas obrigações a cumprir em tela, Doutor Sono equilibra todas elas de forma magistral num clássico instantâneo

Continuação de O Iluminado de Stanley Kubrick estreia nesta quinta-feira, 07 de novembro

por Alexandre Baptista

 

Mike Flanagan talvez soubesse onde estava se metendo quando decidiu ser diretor, roteirista e editor de Doutor Sono. Ou talvez estivesse apenas ouvindo vozes do além.

Com experiência pregressa no terror – ele dirigiu o previsível Ouija – Origem do Mal (Ouija: Origin of Evil, 2016) – o diretor tinha a nada fácil tarefa de sustentar uma continuação de um filme de Stanley Kubrick – não de qualquer filme, mas do querido do público, O Iluminado (The Shining, 1980); prover um filme que funcionasse também como continuação do livro O Iluminado (The Shining, 1977) de Stephen King, substancialmente diferente do filme; sustentar uma adaptação do livro homônimo Doutor Sono (Doctor Sleep, 2013), também de King; manter uma escolha filmográfica – estética, de direção de arte etc. – que funcionasse como um filme atual e, ao mesmo tempo, remetesse ao filme original; e por fim, ainda realizar um filme comercial que se mantenha nas bilheterias e funcione de forma individual e independente de tudo isso.

Ou seja, Flanagan estava de fato ouvindo vozes do além. Porque ninguém, de posse de suas faculdades mentais intocadas por mazelas, embarcaria nesta tarefa por ímpeto próprio.

Seja como for, o cineasta apresenta um filme que é, a sua maneira, uma obra-prima. O longa começa com o tema principal de O Iluminado do Mask repaginado pelos The Newton Brothers e é simplesmente de arrepiar a forma como o diretor presta homenagem a Stanley Kubrick em absolutamente cada detalhe neste início, do estilo estético e edição à trilha sonora, ritmo e paleta de cores.

Na trama, acompanhamos os eventos imediatamente posteriores a morte de Jack Torrance (Henry Thomas) no Hotel Overlook, descobrindo que os tormentos do jovem Danny Torrance (Roger Dale Floyd) ainda não terminaram.

Após um curto prelúdio ainda na infância do garoto, a história avança e, anos depois, Danny (Ewan McGregor) é um alcoólatra fugindo de si mesmo, que encontra um recomeço ao se mudar para uma nova cidade e fazer amizade com Billy Freeman (Cliff Curtis) que o ajuda incentivando-o a frequentar reuniões do AA local.

Além de adaptar a trama do livro de maneira impecável e bastante fiel, Doutor Sono ainda resolve brilhantemente alguns elementos particularmente complicados que fazem referência a O Iuminado. Flanagan respeita tanto o livro quanto o filme e, embora alguns pontos sejam essencialmente diferentes entre ambos, a saída do diretor é não ser decisivo, abrindo margem para que as duas interpretações funcionem.

Um exemplo é o destino do Chef Halloran (Carl Lumbly), que morre nas mãos do Jack Torrance de Jack Nicholson em 1980, mas sobrevive no livro de 1977, aparecendo para Danny vivo, através do Brilho, no livro de 2013. O novo longa não afirma nada conclusivo sobre Halloran e as aparições do mesmo funcionam para ambas as opções.

A trilha sonora, já mencionada acima, é impecável. Ela atualiza os temas originais e constrói uma identidade própria nesse processo, mantendo o clima desesperador e grandioso, especialmente no tema do Hotel Overlook, ao mesmo tempo em que se apresenta como algo novo e atual.

Outros destaques são os efeitos e o excelente uso da espacialidade sonora. Em um filme que trabalha bastante o tema da percepção extra-sensorial, as inserções de barulhos em diferentes partes da sala de cinema criam um clima imersivo fantástico para uma experiência ainda mais interessante do longa.

O elenco é impecável, com Ewan McGregor e Rebecca Ferguson, a vilã Rose, a Cartola, disputando um cabo-de-guerra acirrado pelo foco. Destaques no elenco de apoio vão para Kyliegh Curran e sua determinada Abra Stone e Zahn McClarnon com seu ligeiramente canastrão Pai Corvo.

Ainda sobre o elenco, fica a nota positiva também para os integrantes que revivem personagens de O Iluminado – Henry Thomas, Roger Dale Floyd e Alex Essoe reprisando os papéis de Jack Nicholson, Danny Lloyd e Shelley Duvall – Jack, Danny e Wendy Torrance, caracterizados de maneira similar, mas sem o exagero incômodo de tentativas de imitação.

De forma geral, o trabalho de Flanagan é impecável: nas escolhas do roteiro, na condução da direção e na edição, mesclados ao estilo do terror atual, recheado de jump scares e efeitos visuais.

No entanto, o diretor vai além, dando-se inclusive ao trabalho de inserir pequenos easter eggs como as referências à onipresente Torre Negra na fala “O Ka é uma roda” de Dick Halloran, ou no personagem Bradley Trevor, o “jogador de beisebal número 19”; Danny Lloyd, que interpretou Danny Torrance no filme de 1980 como um espectador no jogo de beisebol; a Rua Elm, uma homenagem à franquia A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984 – 2010) e ao mestre Wes Craven; e outros mais, vinculados a obra de Stephen King e do próprio Flanagan.

Doutor Sono, felizmente, está além de qualquer expectativa que pudesse ter sido gerada com um longa que tinha tantas tarefas virtualmente impossíveis de serem aplacadas. Embora pareça precipitado, arrisco dizer que se configura como um clássico contemporâneo. Vale o ingresso e vale a reprise.

 

 

Avaliação: Excelente!

 

 

 

Trailer

 

 


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