Como Maria do Caritó e A Vida Invisível lidam com a masculinidade tóxica sem apelação e sem mimimi

por Alexandre Baptista

 

Há várias maneiras de se fazer algo. Podemos ser educados ou grosseiros, cuidadosos ou desleixados, alegres ou tristes – e aqui cabe uma infinidade de antagonismos.

Assim também é no cinema e, mais especificamente, na abordagem de temas e assuntos através de um filme. Não existe caminho certo. Existe opção artística, partido intelectual, escolha de identidade visual – e aqui cabe uma lista de itens que podem ser escolhidos para uma melhor apresentação de um longa.

Maria do Caritó, filme de João Paulo Jabur, baseado na peça homônima de Newton Moreno, pode ser considerado, em estilo, o extremo oposto de A Vida Invisível de Karim Aïnouz (confira nossa entrevista com o diretor aqui), baseado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2016) de Martha Batalha.

No entanto, os temas de ambos os filmes revelam o mesmo dilema enfrentado por mulheres sob o domínio masculino. O dilema de existir.

Antes de entrar a fundo no assunto, eu sei que vai ter um tanto grande de gente torcendo o nariz já de saída por conta do uso da palavra machismo.

Eu sei também que tem uma outra galera que quer problematizar a gota de água que ficou no espelho e não escorreu como as outras e o possível preconceito que ela deve sofrer enquanto gota, enquanto água e enquanto matéria não escorrida no espelho.

Só que, assim como na grande maioria das coisas, a verdade está ali, naquela área cinzenta mais ou menos no meio entre as duas galeras. E não é porque você é contra o mimimi que você precisa ser idiota ou ignorante a ponto de defender algo tão cretino quanto o machismo.

E, basicamente, ambos os filmes simplesmente dão uma aula sobre o que é, de fato, o machismo, a masculinidade tóxica e o quão escroto é você achar que "tudo bem".

Maria do Caritó faz isso através da comédia, da ambientação teatral, dos aspectos circenses, dos absurdos e dos estereótipos exagerados: a falácia do grande amor, o pai repressor e interesseiro, o prometido que só faz mal à moça, a sombra da igreja que prega castidade e santidade sem o fazer e sem o ser.

A Vida Invisível faz isso através do melodrama, da ambientação fechada e escura, nauseante, de um Realismo que deixaria orgulhoso Toulouse-Lautrec, do uso de arquétipos profundos: o pai austero e opressor, o "par" amoroso interesseiro, o marido abusivo e bipolar, o colega de trabalho escroto e preconceituoso.

Nenhum dos filmes falam em feminismo. Mas mostram a necessidade dele.

E aqui, mais um tanto de leitores se irritaram, porque entendem o Feminismo e as Feministas como loucas aborteiras e desvairadas que saem seminuas em protestos inúteis por puro mimimi.

A questão é semântica. A luta das Feministas é por equidade. O Feminismo não é o contrário do machismo.

Os filmes de Jabur e Aïnouz acertam em mostrar a necessidade dessa luta. Seja no arco mirabolante da velha virgem, sequestrada de sua mãe pelo próprio pai, prometida a um santo inventado para benefício próprio e da “santa” igreja; seja no calvário duplo imposto às irmãs Guida e Eurídice Gusmão pelos homens presentes em suas vidas, numa sucessão de dissabores e sujeições aturadas a muita resignação e sangue-frio.

Em ambos os casos ou longas, são mulheres tolhidas e privadas de serem quem de fato são. E de muitas maneiras ecoam a vida de milhões de mulheres brasileiras e bilhões de mulheres no mundo todo.

Uma violência que encontra aceitação e conivência por parte de outras mulheres, como Dona Ana Gusmão, mãe das irmãs Gusmão; a Noiva Ex-Defunta, que tripudia o destino sem vida de Caritó; como as amigas, colegas e vizinhas de tantas mulheres que conheço, que julgam e criticam as outras por terem conquistado uma posição de respeito na empresa (com certeza deu pro chefe); ou por sua maneira de vestir (será que ela não percebe que está gorda?); por seus hábitos domésticos (essa preguiçosa não lava louça na mão/esfrega roupa na mão/passa roupa); por seus hábitos sexuais (ah, ela é bem vagabunda… não para com namorado fixo!); …

O impressionante nos dois filmes é que ambos apresentam elementos de distanciamento de nossa realidade, dando aquela sensação de que tudo isso não faz parte da nossa verdade atual. Em Maria do Caritó esse distanciamento se faz presente na escolha das cores, falas e cenários artificiais e planos, sem profundidade real ou concreta; em A Vida Invisível, ele acontece pelo distanciamento temporal, evidente por exemplo, no uso dos cigarros durante as refeições, prática comum até o final dos anos 80 e que hoje é simplesmente impensável.

Devido a esse distanciamento, alguns espectadores podem (ainda que pareça absurdo) se questionar se o tal machismo não é exagero ou algo do passado. Afinal, as mulheres hoje em dia usam calça jeans, votam, podem dar suas opiniões e até mesmo trabalhar nos mesmos lugares que os homens!

Justifico minha negativa então, narrando o momento que me trouxe a vontade de fazer esse texto sublinhando a importância de dois filmes tão diferentes, mas tão pertinentes e iguais em sua essência subjetiva: no ponto de ônibus, esperando o coletivo, ouço a conversa de duas mulheres. Uma conta para a outra, em tom de confidência, que uma terceira, amiga de ambas, havia se desentendido com o marido na noite anterior. A coisa tinha sido feia e a esposa acabou levando a pior fisicamente. Afinal, o marido é um cara ótimo, mas um tanto esquentado.

 

“É, difícil. Mas sabe, a fulana também não é flor que se cheire. Não que isso justifique apanhar do marido, mas a verdade é que ela pede e acaba merecendo”, Curitiba, outubro de 2019.

 

Talvez a pertinência destes dois filmes realmente não seja em relação às mulheres, ao Feminismo e a busca delas por equidade. Talvez, realmente, mais uma vez, as figuras centrais de ambos os longas sejam os homens. E a urgência necessária para que nós, homens, deixemos de ser babacas míopes escrotos, autocentrados em nosso preconceito herdado e reproduzido (muitas vezes) sem reflexão ou racionalidade.

Mas essa é só a opinião de um macho que, faz algum tempo, tem se esforçado bastante para deixar de ser babaca.

 

Confira aqui nossa crítica de Maria do Caritó [que estreia em 31 de outubro] e de A Vida Invisível [que teve estreia adiada para 21 de novembro]. Ambos estreiam dia 31 de Outubro nos cinemas nacionais.

 


Acessem nossas redes sociais e nosso link de compras da amazon

Instagram 

Facebook

Amazon