Promethea é, possivelmente, o melhor trabalho de Alan Moore. O gênio dos quadrinhos embarca em uma viagem cheia de camadas e nos traz uma história que exala ação, aventura e (MUITA) filosofia do começo ao final.

O roteiro é complexo e simples ao mesmo tempo – é o tipo de história que pode ser lida por camadas: os mais dispostos a “embarcar na viagem” vão mergulhar em questões filosóficas e os mais resistentes podem encontrar, mesmo assim, uma ótima história sobre heroísmo e magia.

As questões levantadas na obra e a forma como Moore retrata a imaginação arrancariam aplausos até do mestre Neil Gaiman e parecem encaixar perfeitamente com a obra Sandman do autor.

A série original contou com 32 edições lançadas entre 1999 e 2005. No Brasil a série foi lançada – na íntegra – apenas uma vez.

A Panini Comics trouxe a HQ original completa em Promethea – Edição Definitiva #1 e 2 – dois volumes de capa dura recheados com mais de 450 páginas cada!

Promethea de Alan Moore

A estudante Sofia dá vida a mágica e poderosa heroína Promethea idealizada por Alan Moore, J. H. Williams III e Mick Gray

 

A história de Promethea começa bem simples e só com o passar das edições vai deixando sua filosofia e misticismo aflorarem de verdade – como se quisessem prender o leitor menos adepto de histórias complexas até o ponto que ele não tenha como não seguir com a leitura.

Somos apresentados, logo na primeira página, a uma pequena garota que é obrigada a deixar seu pai e fugir para o deserto. A garota estava sendo salva por ele que se sacrifica ao interagir com cristãos que o matam para eliminar o paganismo.

A pequena foge após seu pai prometer que os deuses iriam protegê-la… esse importante flashback do passado logo fica de lado para vermos uma 1999 muito futurística! A cidade imaginada por Moore possui disco voadores da polícia, um grupo de Super-Heróis chamado de Os Cinco Caras Legais, muitas luzes neon e diversas outras criações (fiquem atentos ao Gorila Chorão, um personagem de HQ criado por Moore para Promethea que sempre aparece com frases pessimistas e relevantes).

Sofia, a nossa personagem principal, existe nessa Nova Iorque futurista de Moore. A personagem está fazendo um trabalho da faculdade onde estuda sobre o mito de Promethea – uma personagem que, segundo os estudos de Sofia, aparece em lendas, revistas em quadrinhos e histórias desde os tempos antigos.

A personagem está com sua amiga Stacia e está se dirigindo para encontrar com Bárbara Shelley – a esposa do falecido autor que escreveu a última versão em quadrinhos de Promethea.

É depois desse encontro que as coisas começam a acelerar e a personagem descobre que sua pesquisa escolar é mais do que uma coincidência – Promethea existe e Bárbara é a última encarnação da heroína. Ambas são atacadas por um Espectro e logo descobrimos que Sofia está destinada a ser a próxima encarnação da heroína.

Promethea de Alan Moore

Bárbara é uma encarnação mais corpulenta e irritadiça de Promethea que ganha vida nos traços de J. H. Williams III

 

A história aparentemente simples começa a se complicar quando começamos a ouvir falar sobre a Imatéria – isso ocorre após a nova Promethea ser atacada por inimigos vindos da Goetia em um show de rock (no meio do ataque sua amiga Stacia foi sugada pela tal Imatéria).

É a partir do aparecimento desse novo conceito que entendemos que Moore irá realmente mergulhar na fantasia e na filosofia. Ao adentrar nessa “nova realidade” ou “outra realidade”, Promethea descobre que as histórias, lendas e nossas próprias emoções tem muito mais poder do que acreditamos.

As histórias começam a ficar cada vez mais surreais e somos apresentados a uma espécie de “conselho de Prometheas” onde versões antigas da personagem ensinam e aconselham Sofia… e não são necessariamente conselhos bons!

Essa ideia me lembrou demais o Parlamento das Árvores que Moore usa no Monstro do Pântano – a ideia funciona bem e adiciona dinâmica! A Imatéria vai ganhando cada vez mais espaço na história e descobrimos que Promethea é odiada por demônios e seitas que acreditam que ela será a portadora do fim do mundo.

Essa primeira fase da HQ é razoavelmente simples de ser compreendida e possui histórias bem interessantes (e características de quadrinhos de super-heróis) como a publicada em Promethea#11 – no Brasil em Promethea – Edição Definitiva #1 – que traz uma trama focada no temido Bug do Milênio e apresenta inimigos “gelecas”.

Essas “gelecas” nada mais eram do que um gel usado para movimentar carros, cadeiras e até compor peças de roupa. Apesar de simples, Moore mantém uma “segunda camada” mais complexa na história e vemos a heroína precisar dialogar com a “geleca” para contem a tragédia.

Promethea de Alan Moore

Capa de Promethea #11 faz referência a filmes sobre invasão alienígena

 

A segunda onda de Promethea

Quando achamos que sabemos para onde Moore está indo com a história, ele decide mudar tudo. Sofia descobre que Bárbara, após sua morte, decide não passar sua eternidade no “conselho de Prometheas” e sim seguir adiante – nenhuma das personagens sabia o que esperar do tal “adiante”.

Sofia decide recorrer a um velho mago – Fausto – que poderia ensiná-la e prepará-la para o que viria adiante. Para preparar Sofia e Promethea o velho mago cobra sexo (sim, exatamente o que você leu). Moore dedica a edição #10 de sua obra a esse ato sexual que é totalmente cercado de simbologia. A personagem então decide ir atrás de Bárbara. E

nquanto Sofia embarca em uma viagem extremamente filosófica que vai do barco de Caronte até a cabeça de Deus, a Terra passa a ser protegida por Stacia – que, após encarnar uma das versões passadas de Promethea, cria uma heroína mais durona e inconsequente que decide acabar com todas as ameaças que rondam a Nova Iorque futurista criada por Moore.

A vontade de ser heróina de Stacia e o apego ao mundano da antiga Promethea criam uma tensão visível pelo possível retorno de Sofia.

Promethea de Alan Moore

O retorno de Sofia e o apego da Promethea substitua criam uma grande tensão

 

Enquanto as aventuras na cidade são bem voltadas para ação e o bom e velho “quebra pau”, a jornada de Sofia é extremamente imaginária e dialoga com os anseios da raça humana e com a jornada da vida.

Deuses antigos e novos são representados em diversas etapas do passeio e a metalinguagem é incrível (os fãs de Sandman vão literalmente pirar!). Moore vai além e ainda consegue criar páginas cuja leitura circular nos permite ler o diálogo em sentido horário ou anti-horário de forma que o entendimento se mantenha o mesmo – o tempo e suas ramificações são muito debatidos nessa jornada de descobrimento da Promethea de Sofia.

A volta para a cidade de Sofia é, para mim, uma das maiores provas do controle que Moore tem sobre a história. Enquanto qualquer leitor de HQ normal espera um grandioso confronto físico, Promethea vai por outro caminho.

Tudo vira um tribunal onde temos o Rei Salomão como Juiz. O personagem é hilário e, ainda sim, sábio! E as duas Prometheas são muito verdadeiras no que dizem. Uma das melhores passagens da HQ na minha opinião!

Promethea de Alan Moore

Uma das cenas do julgamento de Promethea: Rei Salomão pode ser visto no quadro inferior a esquerda – uma das mais divertidas passagens da HQ.

 

A terceira (e última) onda de Promethea

Após os acontecimentos do julgamento, Promethea retorna a Terra e precisa se esconder da polícia -que Promethea retorna e porque ela precisa se esconder são fatos chaves que precisam ser lidos para serem compreendidos! BUSQUE A HQ!!).

Essa última fase da história debate se a personagem é ou não a emissária do fim do mundo – e o que necessariamente isso quer dizer. Nessa fase da história temos a participação de Tom Strong – também criado por Moore.

Essa última fase mistura medo do desconhecido com aventura e é onde todas as pontas vão – pouco a pouco – se amarrando. Enquanto a personagem parece segura de suas decisões, nós leitores ficamos cada vez mais inseguros do que está acontecendo – até o fechamento “oficial” na edição Promethea #31 – Promethea – Edição Definitiva #2 no Brasil – que amarra tudo.

A HQ ainda possui uma edição #32 que vai interessar aos leitores que realmente mergulharam na filosofia proposta por Moore. A edição traz uma espécie de mapa que expõe todos os conceitos filosóficos e fontes de onde o autor buscou inspiração. Os desenhos são extremamente psicodélicos e é, talvez, a única edição que eu entendo como sendo “dispensável” para os que não se interessarem em mergulhar de maneira mais profunda na história (recomendo bastante a leitura atenta para os que forem se aventurar!).

Promethea de Alan Moore

Os lindos desenhos de J. H. Williams III somados aos “diálogos infinitos” de Promethea são aulas de diagramação e planejamento que nos deixam de boca aberta! Promethea é, no fim das contas, uma aula!

 

Aula de narrativa, desenho, diagramação, criatividade e pesquisa. A heroína possui diversas camadas e origens durante a história e sua auto descoberta durante a HQ de Alan Moore e J. H. Williams III é simplesmente sensacional.

Infelizmente essa obra pode parecer muito complexa e “sem pé nem cabeça” para os que não estiverem dispostos a se desafiar e sair da zona de conforto que as mensais de super-heróis propiciam.

Aqueles que decidirem mergulhar no universo de Promethea vão encontrar um terreno fértil e repleto de aprendizados e diversão.

Uma obra altamente recomendada para leitores de HQ mais maduros que queiram entender até onde os quadrinhos podem nos levar.

Fique ligado na nossa coluna Baú de HQ´s e descubra outras grandes sagas que marcaram época!


Créditos:

Texto: Lucas Souza
Imagens: Reprodução
Edição: Alexandre Baptista