Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe (Motherless Brooklyn)
Ano: 2019 Distribuição: Warner Bros.
Estreia: 05 de Dezembro (Brasil)

Direção e Roteiro: Edward Norton

Baseado no livro de Jonathan Lethem

Duração: 144 Minutos  

Elenco: Edward Norton, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Bobby Cannavale, Willem DaFoe, Bruce Willis

Sinopse: Nova York, anos 1950. Lionel Essrog (Edward Norton) é um solitário detetive particular com síndrome de Tourette, o que faz com que volta e meia não tenha controle sobre o que diz. No momento ele está investigando o assassinato de seu amigo e mentor, Frank Minna (Bruce Willis), mas tem poucas pistas sobre o que aconteceu. Obsessivo, Lionel passa a percorrer vários trechos da cidade em busca de respostas, até encontrar um caminho através da especulação imobiliária em vizinhanças resididas em sua maioria por pobres e negros.

 

 

Alexandre Baptista

Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe é um típico filme de detetive com uma conclusão ligeiramente decepcionante

Com estreia nesta quinta-feira 05 de dezembro, longa é escrito, dirigido, produzido e estrelado por Edward Norton

por Alexandre Baptista

 

As histórias de detetive fascinam milhares de leitores e espectadores no mundo todo. Seja pelo mistério de crimes impossíveis, seja pela genialidade dos detetives que se colocam a desvendar tais quebra-cabeças.

Tanto na literatura, com Sherlock Holmes de Sir Arthur Conan Doyle, Hercule Poirot de Agatha Christie, Philip Marlowe de Raymond Chandler e Sam Spade de Dashiell Hammett; quanto no cinema, com Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941), baseado no livro O Falcão Matês (The Maltese Falcon, 1930) de Hammett, À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1946) de Howard Hanks e baseado no livro, homônimo em inglês de Raymond Chandler, O Sono Eterno (The Big Sleep, 1939), Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958) de Hitchcock, Atirem no Pianista (Tirez sur le Pianiste, 1960) de Truffaut, entre outros tantos; o imaginário popular é facilmente cativado pela intrigante colcha de retalhos – nem sempre honesta – que é apresentada neste tipo de história e que nem sempre é o que parece.

Em Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe, vemos todos os elementos das histórias de private eye (detetives particulares) ou gumshoe thrillers (em alusão aos sapatos com sola de borracha usadas por investigadores naquela época), sem, no entanto, o elemento estético mais característico que é a composição noir, o alto contraste entre luz e sombra que tornava o preto e branco do cinema antigo ainda mais charmoso e convidativo.

Um dos primeiros equívocos do filme é justamente essa escolha estética. Ainda que evocar o noir ou até mesmo um neo-noir no cinema atual talvez seja despropositado, a limpeza geral da caracterização dos anos 50 de Norton é asséptica demais, sanitizada demais.

Deixando isso de lado no entanto, o longa apresenta uma boa trama. Lionel Essrog (Norton) é um dos investigadores do escritório de Frank Minna (Bruce Willis). Com um problema mental que o faz ter tiques nervosos, disparar frases desconexas e comportamentos obsessivos, Lionel é também, justamente em função desse distúrbio, um gravador ambulante, memorizando cada frase ouvida ou situação vivida, nos mínimos detalhes.

No entanto, seu talento será colocado a prova após a morte de seu chefe e mentor durante uma negociação misteriosa. Com a ajuda dos colegas do escritório, “Brooklyn” Essrog passa a seguir o caminho trilhado por Minna para entender o motivo de seu assassinato.

A linha narrativa contém todos os elementos clássicos do gênero, seja la femme mystérieuse, por vezes também femme fatale, os clubes noturnos e as pistas frias que se mostram mais promissoras que o verdadeiro fio da meada… Norton utilizou muito bem o livro homônimo de Jonathan Lethem que serviu de base para seu roteiro adaptado.

O elenco excelente também ajuda a segurar a qualidade do filme no alto: Alec Baldwin, Willem Dafoe, Bobby Cannavale e a ótima Gugu Mbatha-Raw como Laura Rose apresentam atuações dinâmicas e vibrantes. Baldwin, no papel do secretário de obras da cidade, ainda empresta algo de sua versão caricatural de Donald J. Trump deixando, no entanto, o seu Moses Randolph nada satírico, mas tão obstinado e insensível quanto.

Um detalhe que chama atenção é que cada vez que um dos medalhões do elenco entra em cena pela primeira vez, Norton opta por apresentar o personagem primeiramente, revelando o ator apenas depois que o espectador já tenha esse contato. Baldwin, por exemplo, fala fora de cena e depois é mostrado de costas, até que por fim se revela; DaFoe, da mesma forma, fala com a cabeça baixa e depois é mostrado entre outras pessoas que cobrem a visão dele até ser de fato mostrado. Um detalhe interessante.

Norton está excelente no papel, lembrando em certos momentos seu Aaron Stampler de As Duas Faces de Crime (Primal Fear, 1996) ou o Dennis Cleg de Ralph Fiennes em Spider – Desafie Sua Mente (Spider, 2002).

Além disso, o filme privilegia o ator e parece ser construído em torno dele. Funciona para o ator e seu personagem, mas esvazia um tanto o filme, deixando inclusive as reviravoltas e revelações finais da trama esvaziadas. Mesmo as conexões entre Lionel e Minna, que deveriam se apresentar como momentos emocionais no longa, parecem vagas e distantes face a importância dada ao protagonista de Norton.

Um destaque é a trilha sonora de Daniel Pemberton, afogada no melhor do jazz e com participação de Winton Marsalis: nada pode funcionar melhor em um filme desse estilo. Justamente por isso, a sutileza da trilha reforça a necessidade de que a escolha visual fosse algo mais cru, mais sujo, mais contrastado e menos pasteurizado e em tons pasteis. Até mesmo a canção de Tom Yorke, Daily Battles, com participação de Flea, soa elegante, introspectiva e bastante em sintonia com a ambientação anos 50 do longa de forma delicada e sutil.

 Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe é, de maneira geral, um bom filme, especialmente para os amantes de histórias de detetives. No entanto, com tantos exemplares magníficos do gênero – incluindo até mesmo o curta Uma História de Detetive (A Detective Story, 2003) da série Animatrix – a adaptação de Norton fica devendo alguma coisa.

Embora tudo esteja ali, falta algo em sua essência. Falta pai e mãe – sendo esta a piada mais infame que este site já viu até hoje, – falta assumir suas referências ou ousar desafiá-las. Falta originalidade para ir além do bom e conquistar a excelência.

 

 

Avaliação: Bom

 

 

 

Trailer

 

 


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