Assunto de Família (Manbiki Kazoku)
Ano: 2018 Distribuição: Imovision
Estreia: 10 de Janeiro de 2019 (Brasil)

Roteiro: Kore-Eda Hirokazu

Direção: Kore-Eda Hirokazu

Duração:  121 minutos Elenco: Lily Franky, Ando Sakura, Matsuoka Mayu, Kiki Kilin, Jyo Kairi, Sasaki Miyu

Sinopse: “Depois de uma de suas sessões de furtos, Osamu (Lily Franky) e seu filho se deparam com uma garotinha. A princípio eles relutam em abrigar a menina, mas a esposa de Osamu concorda em cuidar dela depois de saber dos abusos que ela sofre de seus pais. Embora a família seja pobre e mal ganhem dinheiro dos pequenos crimes que cometem, eles parecem viver felizes juntos até que um incidente revela segredos escondidos, testando os laços que os unem.”

 

 

 

Alexandre Baptista

Assunto de Familia, novo longa de Kore-Eda Hirokazu, fala com sensibilidade sobre os verdadeiros laços que formam uma família

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, filme tem estreia no Brasil nesta quinta, dia 10, e ainda concorre ao Oscar na mesma categoria

Por Alexandre Baptista

 

O que é uma família? Quais são os laços que a formam, a unem e a colocam, para seus membros, em um patamar acima do bem-estar individual?

Em um tempo de muito bate-boca e pouca discussão, muita polarização e pouca cordialidade, muita opinião e pouco argumento embasado, a simples pergunta pode parecer panfletária e vista com desconfiança. Mas acreditem, ela é a base dos problemas e soluções da sociedade, uma vez que é a família a primeira célula social de atuação de qualquer indivíduo.

O longa de Kore-Eda Hirokazu faz todas essas perguntas e análises sem mencioná-las verbalmente uma vez sequer. O cineasta persegue o tema há mais de 10 anos – “O que forma uma família?” – desde os primórdios da produção de Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru, 2013) e por volta de 2008, já havia tido as primeiras ideias que formariam o tema principal de Assunto de Familia, que estreia nos cinemas nacionais nesta quinta, 10 de Janeiro.

As dinâmicas familiares são uma especialidade do diretor, que mais uma vez mostra maestria na captura das cenas do cotidiano desse grupo com hábitos questionáveis. Acompanhamos na história uma família formada por um casal e seu filho, que moram junto com a avó e sua neta. O pai, além de trabalhar na construção civil, realiza junto com o filho pequenos furtos em mercados e lojas da cidade.

A avó, Hatsuo Shibata (Kirin Kiki) e sua neta, Aki (Mayu Matsuoka): caminhos similares percorridos.


 

Ao longo do filme, vamos percebendo que as atitudes de moral duvidosa permeiam todo o clã: a mãe e avó também furtam roupas de lojas, a neta é prostituta e mora em segredo com a avó – seus pais acreditam que ela está em um intercâmbio na Austrália. Mas o grande evento que começa a abalar a dinâmica familiar é a chegada de Yuri, uma garotinha da vizinhança que sofre maus tratos de seus pais e é acolhida pelos larápios.

O longa vai aos poucos oferecendo maiores detalhes sobre esse grupo de indivíduos que se mantém unido por um laço profundo de companheirismo e sobrevivência, uma espécie de amor bruto e individualista, mas também cheio de ternura e reconhecimento: pessoas iguais apesar das diferenças, unidas pela escolha que vai além do sangue e que trilham um caminho duvidoso muitas vezes pela simples falta de oportunidade de serem melhores.

“Você não sente remorso por ensinar as crianças a roubarem lojas? ”, pergunta alguém ao pai, Osamu (Lily Franky) que responde: “Eu não sei outra coisa para ensiná-las”.

Ninguém consegue dar aquilo que não tem. A ética do grupo é completamente disfuncional e é da presença da pequena Yuri que temos o contraponto dos limites, da pureza e da inocência. É ele que vai exercendo cada vez mais pressão sobre as práticas questionáveis de todos por ali até a conclusão que, como a vida, é dura e impiedosa. Como num auto, a punição pelos delitos cometidos irá alcançar os personagens. Como é tradicional na cultura japonesa, certas verdades serão ainda mais fortes se não forem afirmadas em voz alta.

Há cerca de um ano atrás, em 30 de dezembro de 2017, faleceu Hans Meister, cenógrafo alemão com quem trabalhei por um período 10 anos antes. Diretor de segunda unidade em 007 – Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day, 2002), contrarregras dos Beatles em 1962 durante a temporada deles no Star Club de Hamburgo e protagonista de diversas outras realizações e episódios notórios, Hans tornou-se importante em minha vida por outros motivos que tinham nenhuma ligação com o aspecto profissional que nos aproximou em primeiro momento ou as curiosidades empolgantes e divertidas de suas histórias. Ao longo dos anos meu vínculo com ele foi como o de um filho e, embora eu tenho sido presenteado com um pai biológico sensacional, de quem tenho o maior orgulho em herdar diversas características genéticas, além da educação e carinho que me foram conferidos, tive também esse segundo pai escolhido, diametralmente oposto ao primeiro no modo de vida, mas com um vínculo emocional tão forte quanto.

 

O Hans certamente teria gostado desse filme. Essa crítica é em homenagem a ele.


 

É talvez por esse reconhecimento pessoal que o filme funcione tão bem e tenha sido laureado com a Palma de Ouro, além de ter sido indicado ao Globo de Ouro (perdendo para Roma de Alfonso Cuarón) e ser um forte concorrente ao Oscar, ambos na categoria de Melhor Filme Estrangeiro: todo mundo tem alguém que não é da família, mas é mais do que família. Os percalços e furtos, os pequenos esquemas e golpes e até mesmo o momento de diversão e lazer do grupo são apenas subterfúgios para apresentar a dinâmica da família e a demonstração de que o respeito às escolhas pessoais, a quem você é, às suas dores e medos, é um vínculo muito mais forte que o sangue. Afinal, como diz o meme, seu sangue até pernilongo consegue ter.

 

 

 

Avaliação: Ótimo!

 

Trailer

 


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