Superman 80 anos: A trilogia Donner-Singer nos cinemas e a intolerância do público

Como a expectativa dos fãs acabou com uma das melhores representações do Azulão nas telonas e o que isso representaria para o universo DC atualmente

por Alexandre Baptista

 

É praticamente uma unanimidade que Christopher Reeve é a representação absoluta do Superman em pessoa. Assim também é a trilha sonora de John Williams como tema do super-herói, cujos acordes iniciais são inconfundíveis. Obviamente, o filme de 1978 de Richard Donner por consequência, também é uma obra icônica na história do personagem. Hoje visto um tanto como infantil e pastelão, o longa ainda é para muitos a representação mais fiel do herói nas telonas.

Falamos em detalhe sobre o filme nesta matéria, falando de seus méritos e também dos sabidos percalços que envolveram a produção e sua continuação. Vários diretores e roteiristas foram associados com o projeto antes de Richard Donner ser contratado para a direção, que acabou rodando um roteiro reescrito por Tom Mankiewicz de Superman, O Filme (Superman, The Movie, 1978, baseado no argumento de Mario Puzo, autor de O Poderoso Chefão) simultaneamente com sua sequência, Superman II – A Aventura Continua (Superman II, 1981), de março de 1977 até outubro de 1978. Após desentendimentos entre Donner e os produtores, Ilya e Alexander Salkind, a sequência foi paralisada, Donner foi substituído por Richard Lester e muitos atores e atrizes da produção se revoltaram – o caso mais notório sendo a saída de Marlon Brando do longa que já estava 75% concluído. Filme mais caro da história até então, com um orçamento de US$ 55 milhões, Superman foi lançado em dezembro de 1978, faturando US$ 300 milhões durante a sua rodada original nos cinemas, o que justificava ao estúdio – não é a mesma história de sempre? – controlar criativamente o produto para garantir um retorno ainda mais espetacular na sequência. O projeto de Donner para Superman II ficou arquivado e a versão conhecida pelo público foi a finalizada por Lester, com significativas alterações e a ausência de Brando como Jor-El, – qualquer semelhança com a Liga da Justiça (Justice League, 2017) de Joss Whedon é mera coincidência, certo? – estreando nos cinemas somente em 1981.

No entanto, com o lançamento do Blu-ray de Superman, O Retorno (Superman Returns, 2006) em 2009, Bryan Singer usou de seu poder e influência perante a Warner Bros. para realizar o inimaginável: terminar Superman II de acordo com a visão de Donner. Usando o máximo possível das filmagens cruas em arquivo e trechos de Superman, O Filme, além de caprichar na CGI para que os efeitos ficassem parecidos com efeitos dos anos 80 e mantivesse a estética original, Superman II: O Corte de Richard Donner foi incluído no Blu-Ray de Superman, O Retorno, sedimentando a visão de ambos os criadores para o personagem: um alienígena de poder supremo que, criado na Terra, por seres humanos, faz uma escolha consciente de ser o máximo possível como nós, vivendo nossas dúvidas, angústias e medos, numa espécie de flagelo auto-imposto mas que guarda uma pitada (e das grandes) da satisfação de saber que está, de fato, acima de certas mesquinharias. Superman, O Retorno finalmente poderia figurar como o terceiro ato na história do Superman de 1978, interpretado originalmente por Christopher Reeve e agora por Brandon Routh numa performance sublime e arrebatadora.

A ideia teria funcionado magistralmente. A história segue de maneira fluida pelos três longas e fecha um ciclo, especialmente quando pensamos que em O Retorno, nos é apresentado o herdeiro do Superman. “O filho se torna o pai, e o pai se torna o filho”.

No primeiro filme de Donner, vemos a queda de Krypton, o banimento de Zod e seus companheiros, a chegada do bebê Kal-El à Terra, a morte de Jonathan Kent e toda a origem de Superman até o confronto com Lex Luthor que quer separar a Califórnia do resto dos EUA com mísseis nucleares. É extremamente presente a dualidade dos dois pais de Kal-El /Clark Kent e sua indecisão perante a dupla herança; na sequência, os kryptonianos escapam da Zona Fantasma, Lex escapa da prisão, Superman os derrota e Lex novamente vai para a prisão; no terceiro (dirigido por Singer e com quatro HQs de suporte para abrir o prólogo), temos um plano elaborado por Lex a respeito de vestígios de Krypton e possíveis habitantes vivos do planeta natal de Superman, seu exílio no espaço por 10 anos, seu retorno e Lex Luthor tentando novamente fazer com que seu plano original funcione. Alguns diriam que o roteiro é um tanto óbvio… Mas a obsessão, meus amigos, é muitas vezes óbvia. E Lex Luthor, nessa cronologia, é um gênio insano do crime. A premissa do filho do Superman, criado pelo pai adotivo Richard White, apresenta novamente a dualidade entre a herança kryptoniana e a humana, o dilema do pai que se torna o filho e vice-versa. Desta vez, de maneira ainda mais profunda.

Além de funcionarem perfeitamente entre si, os três filmes mantêm o espírito do Escoteiro Azulão intacto. Mesmo tendo sido substituído e “abandonado” por Lois Lane (que segue com sua vida após ser deixada pelo Super), Kal-El continua sendo uma figura alegre e vibrante. A presença de seu filho Jason é precursora em muitos anos do superfilho dos quadrinhos (Jonathan Samuel Kent) e inseriria possibilidades incríveis nos filmes subsequentes, spin offs e muitos mais. Imaginem a presença de Superboy num seriado dos Titãs? – ah, sim, isso vai acontecer na segunda temporada da série da Netflix. Mas já estaríamos vendo isso muito antes se dependesse de Singer e Donner.

Um detalhe curioso é que tanto Donner quanto Singer pretendiam usar Brainiac em suas sequências: Donner revelou recentemente ao 13th Dimension planos que incluíam um pouco do que pudemos ver nos quadrinhos que ele escreveu com Geoff Johns (Superman: Origem Secreta, Superman: Brainiac):

“Bem, Brainiac. Havia um pouco de Brainiac que estaria nele, mas não. Tom [Mankiewicz, o roteirista do filme original] e eu tinhamos ótimas ideias. Porque ele também era um bom diretor. E o que faríamos, escreveríamos o próximo [Superman II] e eu o dirigiria, e faríamos o terceiro e Tom seria o diretor. E assim por diante, enquanto durasse a jornada. Mas os produtores [Alexander e Ilya Salkind] não enxergavam nossa relação com os filmes como fizemos, então eu não fui trazido de volta.”


Singer, de forma análoga, revelou na época do lançamento de O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) seus planos para a sequência de O Retorno (que curiosamente também seria chamado de O Homem de Aço) e ela envolvia a cena deletada do retorno a Krypton do primeiro filme. Sendo novamente um precursor nos argumentos posteriormente utilizados nos quadrinhos, o roteiro de O Homem de Aço traria um Brainiac com origem kryptoniana (sim, anos antes de tudo o que vemos hoje nos quadrinhos) e a inteligência artificial seguiria Superman de volta à Terra a partir dos restos de Krypton durante sua viagem de cinco anos no início do primeiro longa. Boa parte das ideias do roteiro podem ser conferidas no Screen Rant e acreditem, eram empolgantes.

Além de Brainiac, teríamos também outra volta excelente para quem gosta de easter eggs: o ladrão de banco que atira em Superman diretamente nos olhos em Superman, O Retorno seria revelado como sendo John Corben e, posteriormente, veríamos sua transformação em Metallo.

Considerando que estes longas seriam concluídos mais ou menos simultaneamente com o Nolanverso do Batman, cujos filmes seguiam paralelamente aos do Azulão, talvez fosse possível inclusive pensar em um filme da Liga da Justiça, extremamente diferente mas talvez muito mais potente do que aquele que tivemos em 2017, envolvendo ambos os personagens (Liga da Justiça Mortal teria sido incrível!). Mas isso é mera especulação e devemos voltar ao que foi feito e não o que poderia ter sido.

Além dos roteiros (que podem ser conferidos nos longas a qualquer momento) e da trilha sonora de John Williams que segue imbatível até hoje e faz parte dos três filmes, os pontos de repetição estrutural são cuidadosos ao longo dos três filmes e os easter eggs uma verdadeira homenagem à história do personagem (que completava 40 anos em 1978; 68 em 2006; e 80 anos em 2018). Vamos destacar alguns deles a seguir.

Kirk Alyn, o primeiro Superman dos cinemas em 1948.


 

Em Superman, O Filme, temos uma cena em que Kirk Alyn, o primeiro a representar o Superman em carne e osso, aparece em um trem ao lado de Noel Neill, a primeira Lois Lane. No longa, eles representam o General Sam Lane e sua esposa, Ella Lane, com a pequena Lois Lane (que acena para Clark Kent, que passa correndo ao lado do trem). Uma reverência com um peso absurdo à história do herói nas telas.

 

A família Lane viaja de trem: Kirk Alyn (o primeiro Superman dos cinemas) no papel de Sam Lane e Noel Neill (a primeira Lois Lane) no papel de Ella Lane.


Alyn como Clark Kent e Noel Neill como Lois Lane em Super-Homem, 1948. Os primeiros a interpretar os personagens


Noel Neill, a primeira Lois Lane, fez, assim como Alyn, a série live action para os cinemas de 1948, Super-Homem e sua sequência em 1950, O Homem-Atômico contra o Super-Homem. Além disso, substituiu Phyllis Coates na série As Aventuras do Super-Homem a partir da segunda temporada; participou especialmente em 1992 de um episódio da quarta temporada da série Superboy de 1988, como uma personagem coadjuvante. Mas em 2006 teve papel fundamental na volta de Lex Luthor como Gertrude Vanderworth, a viúva ricaça que deixa tudo para o gênio do crime em Superman, O Retorno.

Noel Neill, a primeira e eterna Lois Lane, como Gertrude Vanderworth em 2006.


 

Outra participação em O Retorno, direto das cenas de As Aventuras do Super-Homem, foi Jimmy Olsen: Jack Larson aparece como um bartender, servindo Sam Huntington (o Jimmy Olsen no filme) e Brandon Routh (Clark Kent).



Jack Larson (esq.) e Sam Huntington: Jimmy Olsens!


Além disso, Singer planejava uma participação para Christopher Reeve, que infelizmente faleceu antes do longa ser rodado.

Outro easter egg que aquece os corações dos fãs do herói é a capa de Action Comics 1, reproduzida em uma das cenas do longa.

Cena de Superman, O Retorno que reproduz a clássica primeira HQ que começou tudo: Action Comics 1.


Outra curiosidade sobre Superman, O Retorno, é a obsessão de Singer por alguns atores: para ele, Kevin Spacey deveria ser Lex Luthor – será que era pela semelhança com Gene Hackman? – e Zod deveria ser interpretado por Jude Law. Quando Law recusou o papel, Singer preferiu cortar o retorno do vilão de seu script.

Gene Hackman (esq.) e Kevin Spacey (dir.): não foi só na perfeição da atuação que representaram o mesmo Lex Luthor. A semelhança física ajudou muito também.

 

Jude Law (esq.) e Terence Stamp (dir.): Bryan Singer queria incluir o General Zod no filme de 2006, mas só aceitava Law como seu intérprete. Provavelmente pela semelhança física com Stamp que interpretou o vilão em Superman II.


 

Por fim, uma curiosidade que é apenas coincidência mas não deixa de valer a pena ser mencionada é a última fala de Lex Luthor para o Super em Superman IV – Em Busca da Paz: “Te vejo em 20 [anos]”. O longa foi filmado em 1986 e O Retorno estreou 20 anos depois, em 2006.

Infelizmente, quando foi lançado, Superman, O Retorno vinha na esteira de Batman Begins e sua ambientação “realista”. Com estreia no alto verão americano, era ladeado por teasers de Transformers e estreias de sequências de Piratas do Caribe e outros blockbusters de sempre. O clima entre o público era de filmes com alto teor explosivo, enquanto o longa de Singer oferecia nostalgia e um ritmo mais apreciativo. Segundo o próprio diretor:

"Superman não era um filme de alta octanagem de verão como Transformers ou algo assim. Eu acho que as pessoas esperavam isso de mim, considerando o que eu fiz com os X-Men… Mas eu sou muito apaixonado pelo filme de Donner e para mim a viagem foi emocionante porque eu tive a chance de reprisar essas imagens e explorá-las. Quando você é fascinado por algo e você a ama, parte de fazer um filme que é tentar agradar a todos e fazer um filme de sucesso, mas parte disso acaba sendo um tipo experimental de coisa".

O fracasso de bilheteria do longa sepultou suas continuações e abriu caminho para que a Warner encomendasse de Zack Snyder um universo similar ao Nolanverso para toda a DC – “realista”, sério e sombrio – pavimentando uma estrada de filmes que não se comunicam com o público ou com os personagens que tentam representar. Com o sucesso de Aquaman agora em 2018, esperamos que a empresa se anime a retomar o personagem (mas não tanto a ponto de querer interferir no longa).

Ainda assim, a trilogia segue como uma das melhores representações do octagenário personagem nas telas e como recomendação para os fãs que ainda não tiveram a chance de conferir o material. Aos fãs de Zack Snyder, resta a esperança de, daqui uns 25 anos, conseguir conferir a versão do diretor de Liga da Justiça.

 

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