Entre as muitas versões e reformulações do super-herói, uma se destaca como a mais querida e importante em sua mitologia

por Alexandre Baptista

 

O ano era 1984 e era um ano especial. Sem fazer qualquer relação com o clássico homônimo de George Orwell mas que agregaria simbologia de qualquer forma, ou com os lançamentos de Steve Jobs frente a Apple, foi um ano especial para mim, então uma criança de 03 anos de idade que teve certas memórias gravadas de forma indelével em seu ser e que compartilha hoje uma delas com vocês.

Especificamente na noite do dia 07 de Abril, em Itanhaém, São Paulo, meu avô e o genro dele, meu pai, arrumavam um pequeno televisor portátil (e vocês não imaginam o trambolho que era um “portátil” naquela época) na varanda do ranchinho de pesca transformado em casa de veraneio – mais pelo carinho da família e capricho de minha avó do que pelo espaço do mesmo – para que todos os presentes e em especial as crianças, curtissem Superman, o Filme, exibido pela primeira vez na televisão brasileira no Supercine da Rede Globo.

Foi naquele dia que aprendi o significado da palavra “inédito”. Porque além de nunca ter assistido o filme antes daquele dia, muitas outras sensações eram inéditas ali. A principal delas? Poucos minutos após o começo do filme, eu acreditei que um homem poderia voar.

Hoje, 34 anos depois desse episódio, 40 anos depois da estreia oficial do filme e 80 da estreia do personagem nos quadrinhos, a Cinemark se juntou ao Omelete e promoveu uma exibição especial desse clássico nos cinemas, em versão remasterizada com imagem e som no mesmo padrão do cinema contemporâneo. A resenha sobre o filme em si você vai poder conferir em breve aqui. Porque era óbvio que eu não perderia essa chance. E confesso que a experiência não me surpreendeu.

Não me surpreendeu porque eu já sabia que seria uma catarse. Superman, o Filme é para mim aquele tipo de longa que deveria ter exibição permanente nos cinemas. Eu iria novamente assisti-lo hoje. E amanhã. E depois de amanhã. E todas as vezes em que alguém dissesse que a DC não sabe fazer filmes – o que contém parte de verdade, mas a culpa não é dos criadores e sim dos gestores. Mas falemos do que realmente importa aqui.

Quem será o verdadeiro Superman?


 

Pra começar, é importante lembrar que estamos falando de um filme de 1978, que foca em um herói criado em 1938. Com uma rígida moral, um rígido código de ética, valores sólidos e um senso de justiça ímpar, o Super-Homem (como era chamado nos quadrinhos brasileiros então) tem em sua essência uma identidade que não é bem vista atualmente. Na cultura do anti-herói, do vigilante e do justiceiro mascarado, as personalidades dúbias e violentas, que fazem justiça com as próprias mãos, sem respeito por regras ou acordos sociais, tomaram todo o espaço no imaginário do público, tornando figuras como Deadpool, Justiceiro, Doutrinador, Exterminador, Arlequina, versões extremistas do Batman e até mesmo o Coringa, mais atraentes do que o velho escoteiro azulão.

Esse fator é, em meu ponto de vista, a essência do que vai mal por exemplo em O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) de Zack Snyder. Na tentativa de atender às expectativas do estúdio, que aguardava por um longa que reprisasse o sucesso do Nolanverso frente ao Cavaleiro das Trevas e conquistar os fãs atuais, distanciou-se da essência icônica do personagem. Removeu as cores, removeu a luz, isolou-o como um alienígena – e não, não adianta no fim do filme ele dizer que foi criado no Kansas – removeu-lhe a alegria, a leveza, removeu-lhe o disfarce trapalhão enquanto Clark Kent, sua identidade secreta e por fim, tornou-o um executor assassino. Descaracterizou o Superman – sem falar da morte inaceitável de Jonathan Kent ainda, volto a isso em breve – e falhou miseravelmente em cativar o público e convencê-lo de que estavam frente ao personagem.

Supermen: Christopher Reeve (esq.) e Henry Cavill (dir.), extremos opostos.


A versão clássica de Richard Donner, no entanto, acerta não somente nisso. Ele acertou na data de lançamento, comemorando então os 40 anos do super-herói; acertou no equilíbrio entre aventura e comédia camp (a comédia de gracejos e galhofa) – moda na época, com Peter Sellers e outros comediantes do estilo reinando nas telonas; acertou na escolha de atores desconhecidos nos papéis principais, deixando as estrelas para os papéis secundários; mas mais do que isso, acertou no transporte do personagem das páginas para as telas, adaptando o material sem reproduzi-lo fielmente. A melhor adaptação é aquela que entende a diferença entre as mídias e que é trabalhada para reproduzir com fidelidade a essência de um personagem ou uma história, adaptando de forma consciente cenas e passagens para que o conteúdo funcione da melhor maneira possível no outro suporte. Querem um exemplo reverso? Já notaram como são péssimas as versões “a história do filme em quadrinhos” de qualquer produção?

Um dos maiores trunfos do longa é Christopher Reeve, um ator iniciante na época, que simplesmente nasceu para o papel. Quem já assistiu o teste de câmera, presente nos extras de DVDs e Blu-rays do filme, sabe porque. O ator percebeu em uma cena, a essência do personagem, compreendendo sua dualidade que vai além da simples identidade secreta. Na cena em questão, Superman visita Lois Lane que o entrevista, voa com ele, se apaixona por ele e, após a partida do herói, recebe Clark Kent, com quem havia combinado um jantar. Clark é deixado esperando na sala e, enquanto Lois termina de se arrumar, fica em dúvida se deve ou não revelar seu segredo a ela. Ele então desarqueia a coluna – Clark anda com a cabeça baixa, curvado para frente – estufa o peito; abre o sorriso, desfazendo o beicinho; desfranze a testa, suavizando o rosto até então ansioso e levemente neurótico e retira os óculos. Tudo isso leva um segundo. E me impressiona todas as vezes. Christopher Reeve dá uma aula, até hoje não reproduzida em qualquer mídia e formato, de como Clark Kent “se transforma” no Superman. De como é possível que ninguém o reconheça em sua identidade secreta. Não, não são apenas os óculos.

 

 

Superman foi enviado à Terra por seu pai, Jor-El (Marlon Brando), para escapar da destruição de seu planeta natal Krypton. Durante sua jornada até nosso planeta, o bebê Kal-El é instruído por uma versão artificial do intelecto de seu pai que, entre outras coisas, frisa que entre os humanos ele terá o poder de um deus. E que assim sendo, ele deve ser bom, gentil e jamais interferir em nossos assuntos, deixando que sua liderança no entanto, seja inspiração para que nós mesmo façamos isso.

O bebê chega à Terra e é encontrado e acolhido por Jonathan e Martha Kent. Surge então Clark Kent, o nome humano dado pelo pais terráqueos adotivos de Kal-El, que ao longo do convívio familiar, vai se tornando uma persona do herói. Mais que uma identidade secreta, uma escolha de vida.

Clark Kent / Kal-El como adolescente, ainda no início do filme, é um exemplo da construção dessa persona: ele se mantém em segundo plano perante sua turma de escola ao não demonstrar suas reais capacidades mas, ao mesmo tempo, deixa claro que faz isso por obrigação. Sempre que possível usa seus poderes, seja chutando uma bola de futebol americano ao horizonte, seja apostando corrida com o trem que passa pela região.

E aqui chegamos ao ponto crucial da formação do ícone, o momento que define o caráter essencial do personagem. O imprint, o registro profundo deixado por Jonathan e Martha Kent no jovem Superman.

 

Jonathan Kent: Está se exibindo um pouco, não é filho?
Jovem Clark Kent: [indo a Jonathan] Hmmm … eu não queria me exibir pai. É só que, caras como esse Brad, eu só queria destruí-lo.
Jonathan Kent: Sim, eu sei, eu sei.
Jovem Clark Kent: E eu sei que não deveria …
Jonathan Kent: Sim, eu sei, você pode fazer todas essas coisas incríveis e, às vezes, você sente que vai explodir a menos que você possa dizer às pessoas sobre elas.
Jovem Clark Kent: Sim. Quer dizer, toda vez que eu pego a bola eu posso fazer um touchdown. Toda vez! Quer dizer, uma pessoa está se exibindo se faz coisas que é capaz de fazer? Um pássaro está se exibindo quando voa?
Jonathan Kent: Não, não. Agora me escute. Quando você apareceu para nós, pensamos que as pessoas iriam te levar embora porque, quando descobrissem, você sabe, sobre as coisas que você pode fazer… e isso nos preocupava muito. Mas então a gente envelhece, e começamos a pensar diferente e as coisas ficam muito claras. E uma coisa eu sei filho, e é que você está aqui por uma razão. Eu não sei qual é a razão ou seja qual for o motivo… Talvez seja porque… ah… eu não sei. Mas eu sei de uma coisa. Não é marcar touchdowns. Certo?

[eles riem]
Jovem Clark Kent: Obrigado, pai.

Em uma cena leve e cotidiana, simples e curta, o entendimento entre pai e filho, a confiança do jovem Clark em Jonathan – brilhantemente interpretado por Glenn Ford – torna-se pungente e marcante. Não é necessário explicar nada ao expectador. É presumível que aquela não era a primeira vez que o assunto vinha à tona e a sequência da cena, com a morte de Jonathan vítima de um enfarto, reforça o aspecto simbólico de que o diálogo entre os dois era para Clark uma marca indelével de sua família humana em sua essência e da presença de seu pai adotivo em sua formação de caráter.

Volto aqui à versão apresentada por Zack Snyder em O Homem de Aço, com a morte de Jonathan ocorrendo de uma forma extremamente dramática e exagerada. Para preservar a identidade secreta do filho adotivo, o fazendeiro se sacrifica ao recusar ser salvo de um tornado que assola a região. A falta de sutileza da cena não chega nem a ser o pior problema que está verdadeiramente no vazio ocupado por Clark Kent: uma máscara vazia de autopreservação. O verdadeiro Clark Kent jamais deixaria de salvar o pai.

Além de definir o lado humano de Superman como algo além de uma identidade secreta, a morte de Jonathan Kent no filme de 1978 coloca em curso a busca por seu legado original, culminando em sua revelação ao mundo. Na Fortaleza da Solidão, a inteligência artificial de Jor-El guia o filho por anos de estudo: as galáxias, os próprios poderes, a relação com os humanos. O lado alienígena e isolado deste mundo, um forasteiro infinitamente superior a nós que deve agir com imparcialidade e justiça. Mas Kal-El teve uma experiência entre os humanos. Ele teve os Kent. E quando Superman alça seu primeiro vôo uniformizado no longa, podemos ter certeza: nem kryptoniano, nem terráqueo e sim algo no meio das duas coisas.

Já em Metropolis, podemos ver a dinâmica de Clark Kent, o atrapalhado jovem de boas maneiras, gírias antiquadas e educação interiorana, em seu primeiro dia na redação do Planeta Diário. Sua resposta para Lois Lane, que inconscientemente (ou propositalmente?) havia acabado de trollar o mais novo colega de trabalho, chacoalhando uma garrafa de água gaseificada que ele se propôs a abrir para o chefe, dá o tom de sua essência:

 

Lois: Me desculpe, me desculpe. Eu sinto Muito. Eu não quis chacoalhar tanto assim.
Clark: Claro que não, Lois. Por que alguém iria querer fazer um completo estranho parecer um idiota em seu primeiro dia de trabalho?

Genial. Uma demonstração de agressividade passiva com absoluta perspicácia e inteligência… que se passa por ingenuidade e tolice. A essência de Clark Kent, uma figura capaz de saltar prédios com um único pulo; mais rápido que uma bala; mais forte que uma locomotiva; e que não consegue carona em um elevador lotado; se enrosca em uma porta giratória; perde taxis; ou deixa seu casaco ficar preso na porta do vestiário feminino.

O encerramento tradicional dos filmes de Superman, pela primeira vez.



O longa prossegue e, considerando a perfeição com que tudo foi feito à época, do roteiro impecável de Mario Puzo, passando pela direção e a atuação; da trilha sonora magistral de John Williams aos efeitos especiais (hoje datados, mas dignos do Oscar Especial de Realização – Efeitos Visuais em 1978, quando não existia a categoria Efeitos Especiais na premiação), não seria difícil continuar escrevendo sobre o mesmo e fugir do ponto principal deste artigo: o verdadeiro Superman. Por isso, vamos deixar para continuar falando do filme numa próxima matéria e vamos ao assunto que trouxe você até aqui.

O verdadeiro Superman não é Christopher Reeve ou a versão do longa de 1978, embora ele seja o mais reconhecido até hoje, dada sua permanência perante o público geral. Como digo sempre, o público geral não é o público fã de quadrinhos. Eles são os expectadores casuais, que consomem blockbusters e “filmões”. São aqueles que desconhecem cânones e detalhes de produção, mas que perpetuam a existência de grandes marcas, nomes e conhecimentos. São as pessoas em geral, que consomem um filme como consomem um lanche de fast food, sem grande conhecimento do detalhe, mas sabendo exatamente onde encontrar um luminoso ou uma capa vermelha com um par de arcos um S dourado. Seja um McDonald’s ou um Superman, a identificação perante eles vem através da permeabilidade e relevância de uma determinada coisa que tem, no audiovisual, a sua maior potência. Porque é através dos filmes e séries que inúmeras pessoas – jovens, adultos e crianças – tomam contato com um universo pela primeira vez. Seja no cinema, na televisão ou no streaming, a permeabilidade da mídia audiovisual é inegavelmente maior que a mídia escrita. É através dela que aprendemos o que significa “inédito” na maior parte das vezes. Seja na tela do cinema, do celular, ou em um pequeno televisor preto e branco no litoral paulista. E é nisso que Superman – o filme acerta em cheio. Ele identifica a essência do personagem, sem se importar com detalhes que podem ser alterados sem grandes prejuízos para “o cânone”. Ele respeita o que importa e não se importa com o resto. Ele retrata o verdeiro Superman para uma plateia de todas as origens e que (ainda) não se importa com ele.

Seja um Superman que voa ou um que apenas salta realmente muito alto; seja um que sofre com uma variedade de kryptonitas de diversas cores ou um que só conhece a tóxica e venenosa kryptonia na cor verde; tenha ele perdido seus pais ainda adolescente ou estejam os Kent vivos e saudáveis; tenham seus poderes se manifestado ainda na infância ou somente na fase adulta; não importa. O verdadeiro Superman pode ser reconhecido na forma como trata os terráqueos, como se relaciona com eles e como enxerga nas pessoas aquilo que o Dr. Manhattan redescobre ao fim de Watchmen: que ao escapar da condenação de Krypton, recebeu o maior e mais supremo de todos os dons: a vida.

 

Sugestão de Leitura:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acessem nossas redes sociais e nosso link de compras da amazon

Instagram 

Facebook

Amazon 

 

 

LEIA MAIS: Porque o Superman é um Personagem tão Difícil de Escrever?